Baião 'Paraíba': Música de Luiz Gonzaga é um retrato do cenário político e social do estado


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O baião ‘Paraíba’ do cantor pernambucano Luiz Gonzaga é um retrato do cenário político e social do estado que leva o mesmo nome da música. O significado por trás desse clássico do artista foi tema de uma reportagem especial para o projeto São João do Nordeste,  que tem algumas produções reexibidas   no programa Paraíba Comunidade deste domingo (3), nas TVs Cabo Branco e Paraíba.

A canção de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, foi lançada em 1949 e conta com cerca de 125 gravações nas vozes dos mais diversos nomes da música brasileira. A letra fala do exílio, da distância e da saudade de quem abandona a própria terra por causa da seca. “Foi um Baião feito para uma campanha política e acabou se tornando um clássico. E houve até morte em Campina Grande quando foi lançado”, relatou Gonzagão em entrevista à TV Cabo Branco em 1989.

Paraíba masculina, Muié macho, sim sinhô

O significado da frase ‘mulher macho, sim senhor’ vem da revolução de 1930. João Pessoa era governador da Paraíba no período e tinha sido candidato a vice-presidente do Brasil na chapa com Getúlio Vargas, que perdeu as eleições em março daquele ano e em julho João Pessoa foi morto por um adversário político no Recife.

Luceni Caetano da Silva, professora do departamento de música da UFPB, relembra que João Pessoa mandou invadir a casa de João Dantas e colocou pertences dele na rua, inclusive as cartas que ele trocava com a poeta Anayde Beiriz.

João Dantas ficou muito revoltado com isso, porque essa investida na casa dele era para encontrar algo que o incriminasse, mas não encontraram nada. Então Dantas soube que João Pessoa estava na confeitaria Glória em Recife, um local frequentado por pessoas da alta sociedade e políticos para tomarem chá das cinco. João Dantas foi à Recife e assassinou João Pessoa com três tiros.

“Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira escreveram [a música] pensando nessa situação, nesse contexto histórico. Quando ele diz ‘Paraíba masculina, muié macho, sim sinhô’, se refere ao estado da Paraíba, porque foi o primeiro estado do Brasil a dar o primeiro passo para a revolução de 1930 com a morte de João Pessoa”, explica a professora.

Eita pau pereira, Que em Princesa já roncou

A frase se refere ao coronel José Pereira, que liderou a revolta de Princesa Isabel, cidade no interior do estado, que foi declarada independente da Paraíba.

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As hostilidades começaram quando João Pessoa impediu o coronel e outros produtores de algodão de vender aos estados vizinhos sem passar pela tributação do estado. Além disso, havia motivos pessoais e políticos. José Pereira foi informado pelo governador que estava fora da lista de candidatos a deputado federal e rompeu imediatamente.

Com o rompimento com o governo, Zé Pereira decidiu apoiar o candidato de Washington Luís, Júlio Prestes, que foi o vitorioso nas urnas. João Pessoa manda a polícia militar para Teixeira com a ideia de proteger as eleições e a PM invade a propriedade dos Dantas, assim inicia-se uma batalha, de acordo com Thiago Pereira, bisneto do coronel Zé Pereira.

Os Dantas se defenderam com o apoio de Zé Pereira, que mandou cerca de 70 homens de sua confiança para ajudar na proteção e, em 28 de fevereiro, aconteceu a primeira batalha da Guerra de Princesa. Foram 6 meses de batalhas, encerrando com Princesa Isabel se declarando território livre, com bandeira, hino e leis próprias.

Com a morte de João Pessoa, não havia mais sentido na guerra, pois a intenção principal era a intervenção federal, retirando João Pessoa do cargo, mas o inimigo já estava morto.

Em 2022 se comemora os 110 anos do nascimento de Luiz Gonzaga e a obra sobre a Paraíba ao som da zabumba e da sanfona, ganhou o coração não só dos nordestinos, mas também do Brasil e levou todos a cantarem um abraço à pequena Paraíba.

Hoje eu mando um abraço pra ti pequenina Paraíba masculina

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Hebert Araújo

Repórter, especialista em jornalismo cultural pela FIP e mestre em jornalismo pela UFPB. Interessado em aprender e compartilhar conhecimento. Adepto da máxima “Jornalismo é saber ouvir”.

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Gabriella Loiola

Jornalista em formação. Vivendo entre Recife e João Pessoa. Apaixonada por contar histórias.

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