Val Carvalho

DELÚBIO, UMA QUESTÃO DE SOLIDARIEDADE E JUSTIÇA DE CLASSE.

Venho acompanhando com atenção o debate sobre a carta do companheiro Delúbio Soares ao Diretório Nacional do PT solicitando o seu reingresso ao partido. Conheço Delúbio desde a década de 90 e tenho acompanhado suas ações partidárias e de campanha. Sempre o vi como um quadro petista fiel e competente, qualidades essas que faziam aumentar a minha confiança no núcleo dirigente do partido. Não poderia, portanto, deixar de registrar as minhas razões a favor do reingresso do companheiro Delúbio às fileiras do PT.

Em primeiro lugar, é preciso destacar que Delúbio teve um papel importante na construção do PT e na estratégia que ampliou sua força na sociedade e acabou elegendo Lula presidente. Somos hoje um partido governante, em grande parte por conta da militância, mas em parte, também, graças a dirigentes firmes e competentes, como Delúbio. Dirigentes que souberam conduzir o nosso barco nas águas tormentosas da grande política. E estamos falando não de um partido qualquer, mas de um partido de esquerda, de origem classista, com proposta de mudanças profundas do país e liderado por um operário metalúrgico. Portanto, um partido que sofre pesados ataques das classes dominantes visando quebrá-lo em sua determinação ou desviá-lo de seus objetivos.

Em segundo lugar, todo partido de esquerda comete erros no seu esforço para avançar na luta. Esses erros, naturalmente, são explorados pelos nossos inimigos de classe. Foi assim no passado, é assim no presente e será assim no futuro. Isso faz parte da luta de classes, na qual estamos mergulhados até o pescoço, embora possa não parecer. Os erros do PT, cometidos coletivamente, foram usados pelos nossos inimigos em 2005, quando, finalmente, a oposição produziu a campanha de denúncia e conseguiu a crise política que tanto buscava. Na ofensiva, a oposição impôs importantes baixas ao nosso partido, com o afastamento de quadros políticos experientes e calejados. Mas, apesar da tentativa de linchamento político e moral feita pela mídia, no final das contas, superamos a crise política e vencemos as eleições. Uma vez mais derrotamos a direita. Contudo, não foi entregando a cabeça de nossos dirigentes que vencemos a crise. Vencemos porque enfrentamos a direita, porque não conciliamos com a pressão da mídia, embora nem todos tivessem agido assim. Essa é uma lição fundamental, pois precisaremos de muito mais determinação e firmeza para eleger Dilma Roussef presidente. Só existem duas situações em que não há dúvidas sobre a expulsão de um filiado do PT: por traição partidária ou por conduta imoral. Em nenhum desses casos se enquadra Delúbio. Muito pelo contrário, Delúbio sempre agiu dentro das políticas e resoluções aprovadas coletivamente e, mesmo sob as condições mais adversas, onde faltou solidariedade e sobrou julgamento hipócrita e interesseiro, para dizer o mínimo, uma pressão moral que pouquíssimos agüentariam, ele se manteve fiel ao partido. No plano pessoal, apesar de todas as investigações oficiais e da mídia, nada foi encontrado que desabonasse ou comprometesse o companheiro Delúbio.

Em terceiro lugar, com o aprofundamento da crise induzida pela mídia e a oposição, interessadas claramente na desestabilização do governo Lula, era de se esperar a revolta da base partidária e a necessidade de um processo de autocrítica do partido. Nesse contexto não caberia a expulsão isolada de Delúbio. Era óbvio que se buscava um “bode expiatório”, entregando a sua cabeça aos insaciáveis inimigos de classe. Sendo o erro coletivo não podia haver um culpado apenas! Não poderia aceitar isso. Mas a decisão estava tomada e, diante dela, o companheiro Delúbio se comportou com muita dignidade, respeitando o partido e demonstrando coragem e força no seu ostracismo interno. Agora, que ele tomou a iniciativa de pedir o reingresso ao PT, e levando em conta que ficou muito claro a natureza classista da crise política explorada pela oposição, bem como a atitude honrada de Delúbio em relação ao PT, mesmo sofrendo com a injustiça da decisão e com a falta de solidariedade de muitos petistas, acho um gesto de reparação do PT, aprovar o seu pedido.

Rio de Janeiro, 13 de abril de 2009

Val Carvalho – PT/RJ