Lealdade a Delúbio Soares
Quando tinha uns doze ou treze anos em 1968 ou 69 eu mais 11 amigos decidimos comprar uma bola de capotão. Ter uma bola de capotão era o sonho dos garotos dessa época. Para isso fizemos uma “vaquinha” e todos ficamos donos da bola. Nossa principal brincadeira era jogar futebol e por falta de lugar adequado muitas vezes brincávamos na rua.
Sempre tinha algum vizinho que reclamava. De vez em quando chegava por lá uma “Radiopatrulha” (RP), um fusquinha preto e branco que fazia a ronda pelo bairro.
Nesta hora parávamos a partida e saíamos rapidamente do local. Quem estivesse com a bola se mandava primeiro. Precisávamos proteger nosso tesouro.
Certo dia estávamos entretidos no meio de uma partida muito disputada e não percebemos a chegada de uma RP. Os policiais desceram do carro e um deles foi ao meu encontro porque a bola estava comigo.
Aproximou-se e de forma intimidadora perguntou quem era o dono da bola. Neste momento 7 amigos correram para o meu lado e disseram que todos eram donos da bola.
A resposta do policial foi dura: “Se todos são donos da bola, então todos vão para a delegacia”. Tirou a bola de minha mão e a pé fomos até o 6º Distrito Policial que ficava há uma quadra de onde estávamos.
Quando chegamos à delegacia em vez dos 12 donos da bola só havia 8. Os outros 4 se mandaram fugindo da responsabilidade.
Não houve lealdade por parte deles e os 8 que ficaram assumiram as conseqüências que era dos 12.
O caso do nosso Companheiro Delúbio Soares pode ser comparado a essa história. Enquanto jogávamos e nos divertíamos todos eram donos da bola.
Aproveitamos das benesses do crescimento do PT. Ganhamos a eleição presidencial, centenas de mandatos, dezenas de prefeituras, governos estaduais. Enfim o PT se tornou um partido poderoso e organizado.
Como sempre tudo foi conquistado com muita luta. Enfrentamos adversários desleais, imprensa comprometida com outras forças políticas e sofremos com nossa inexperiência em tratar de assuntos que não estávamos acostumados.
Sabíamos que não poderíamos cometer erros, mas foi inevitável. Erramos sim. Todos erramos e jogar a culpa nas costas de 1 ou 2 ou 8 era mais fácil. Nossas principais lideranças na Câmara Federal e na direção do Partido foram atacadas implacavelmente.
José Dirceu perdeu o seu mandato, Silvio Pereira saiu do PT e Delúbio Soares além de ficar com a “bola” sozinho foi expulso do Partido num ato para agradar a mídia e diminuir os ataques de nossos adversários.
Hoje Delúbio Soares quer voltar para o PT. Quer ter o direito de militar dentro dos quadros do Partido.
Alguns petistas relutam em devolver esse direito ao Companheiro Delúbio. Julgam-se isentos dos problemas que aconteceram. Preferem construir vários argumentos e culpar uma só pessoa pelos erros. É muita hipocrisia.
Na história da bola de capotão, os 8 amigos continuaram unidos e enfrentaram os problemas juntos. A lealdade prevaleceu.
Espero que o Diretório Nacional tenha o bom senso e cometa a justiça de devolver ao Companheiro Delúbio Soares o direito de voltar a ser petista oficialmente.
Será um ato de justiça partidária e de lealdade com um companheiro que dedicou mais da metade de sua vida na construção do Partido dos Trabalhadores.
Roberto Casseb
Jornalista e filiado ao PT desde 19 de maio de 1981. Foi Coordenador do Setorial Estadual de Esporte e Lazer do PT em 2003/04.




