Kjeld Jakobsen

A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE

Há muita coisa em comum nos processos políticos que tem possibilitado a partidos de esquerda chegar ao governo em vários países da América Latina e de outros continentes como o caso da África do Sul.

Em primeiro lugar, mudaram a tática na luta pela emancipação da classe trabalhadora da via revolucionária para a eleitoral, embora normalmente sob regras e procedimentos que não tiveram a oportunidade de influenciar, pois foram estabelecidos por quem estava no poder e que nele pretendia permanecer.

Isto gera um desequilíbrio na disputa que compromete a própria democracia, principalmente devido ao apoio financeiro que os partidos da direita costumeiramente recebem para defender os interesses econômicos e políticos do status quo, incluindo doações generalizadas e não declaradas.

Particularmente, as doações não contabilizadas de empresas às campanhas eleitorais são um problema, mas a melhor maneira de eliminá-las não é punir quem as utiliza e sim criar mecanismos que permitam disputas equilibradas entre os diferentes partidos políticos como o financiamento público de campanhas. Do contrário, provavelmente, teríamos que punir retroativamente várias gerações de políticos no Brasil.

Além de participar do processo político sob estas condições, os partidos de esquerda adéquam seu programa de modo a contemplar a diversidade econômica, política e social do país com o intuito de construir uma coalizão da maioria do eleitorado e forças políticas para governar. Foi o que o PS fez no Chile, o CNA na África do Sul, o PT no Brasil, a FMLN recentemente em El Salvador, entre outros.

Quando a esquerda busca se viabilizar eleitoralmente desta forma para se tornar governo, de acordo com a concepção Weberiana, ela está se distanciando da ética da convicção e se aproximando da ética da responsabilidade. Isto é, se apega menos ao seu programa ideológico mais puro e passa a defender propostas mais amplas e pragmáticas para corresponder às preferências da sociedade. Este movimento é freqüentemente negociado com outras forças políticas e sociais e o posicionamento que o partido assume entre as duas éticas varia conforme a ideologia e leitura da conjuntura que suas lideranças fazem.

Entretanto, se a esquerda não participar do processo político, mesmo com os problemas apontados, estará renunciando ao seu papel histórico de disputa do poder em nome do setor social que representa.

Por outro lado, apesar de os partidos de esquerda adotar a ética da responsabilidade e seguirem a combinação de regras descritas anteriormente, a burguesia ainda assim se sentirá ameaçada e tentará interferir no processo político depois de a esquerda eventualmente assumir o governo para neutralizá-la ou destituí-la.

Esta intervenção pode ser inclusive violenta como foi o caso de tantos golpes militares durante a guerra fria para derrubar governantes progressistas democraticamente eleitos na América Latina e em outros continentes ou como ocorreu exatamente 16 anos atrás, quando o líder do Congresso Nacional Africano (CNA), Chris Hani, foi assassinado por um militante branco da extrema direita na África do Sul. Carismático, culto, comunista e ex-comandante da luta armada contra o Apartheid, ele somente era sobrepujado em liderança e prestígio popular por Nelson Mandela. Se não tivesse morrido, a história da transição do regime racista para a democracia teria sido diferente e provavelmente com menos concessões à elite branca, mas o seu desaparecimento fortaleceu a posição de dirigentes mais moderados na definição das regras da transição, bem como a ascensão de lideranças como Thabo Mbeki que sucedeu Mandela.

Eliminando qualquer comparação entre personagens, mas traçando paralelos entre situações, a campanha que elegeu Lula em 2002, o seu primeiro mandato e, particularmente, a crise de 2005 guarda semelhanças com as três constatações anteriores.

O PT adequou seu programa a diversidade brasileira, viabilizou-se eleitoralmente e formou uma ampla coalizão política para governar com outros partidos de esquerda e de centro. Aproximou-se assim da ética da responsabilidade, mas mesmo assim a burguesia local se sentiu ameaçada.

A crise de 2005 possibilitou que ela fosse à ofensiva com todas as forças contra nosso governo e nosso partido. Nossos principais dirigentes foram satanizados. O companheiro José Dirceu teve seu mandato cassado por uma decisão eminentemente política onde os deputados atenderam a pressão da mídia e da elite, vários de nossos parlamentares não foram reeleitos devido à campanha sórdida que sofreram e o companheiro Delubio Soares foi destituído do cargo de tesoureiro do PT e expulso do partido.

Ao longo da nossa história, aquele momento foi quando nossa direção partidária mais se afastou da ética da convicção, pressionada, principalmente, pela mídia. Esta ética foi em alguma medida recuperada com a forte participação da militância no PED que se seguiu e na campanha eleitoral de 2006 quando Lula foi para a esquerda, inclusive defendendo várias das propostas originais do PT.

Apesar do resultado inquestionável que o levou à reeleição, os ataques ao governo e ao partido continuam e continuarão, pois a burguesia somente se sente tranqüila quando ela governa.

Portanto, a disputa continua e há questões não resolvidas em relação às ocorrências de 2005, principalmente o resgate dos companheiros sacrificados. O companheiro Delubio Soares acaba de pedir sua refiliação ao PT, no que está absolutamente correto e este é um pedido que nossa direção partidária deveria atender porque ele nada mais fez na época do que cumprir com sua obrigação de dirigente partidário de contribuir para a viabilidade eleitoral do partido.

Esteve afinado com a ética de responsabilidade que o partido implementou, mas deve ter incomodado a burguesia exatamente pelo seu empenho em viabilizar o PT eleitoralmente, tal foi a monta dos ataques e exposição que sofreu na imprensa.

De acordo com a concepção Weberiana das duas éticas, o posicionamento ideal é conseguir governar o mais próximo possível das convicções e neste sentido creio que valorizar companheiros que se expuseram pelo partido é se aproximar da ética da convicção. Por isso defendo a oportunidade de Delubio Soares voltar a militar no partido que ajudou a construir.

Kjeld Jakobsen