Uma conquista de todos os brasileiros

Nada do que até hoje foi conquistado no campo dos avanços sociais, como as garantias aos direitos do trabalhador, teria sido possível sem o engajamento forte, atuante e propositivo dos movimentos populares, dos sindicatos atuantes, dos próprios trabalhadores conscientes e mesmo dos empresários progressistas. Todos nós sabemos que a busca pela sobrevivência digna  advém do trabalho árduo, da correção e da competência, por mais sofisticado ou mais simples que seja.

Historicamente, as conquistas trabalhistas sempre foram acompanhadas de muitas lutas, embates e acaloradas discussões. As primeiras reformas trabalhistas conquistadas ainda no governo de Getúlio Vargas – como a legalização dos sindicatos, implantação da carteira de trabalho, férias, salário mínimo, previdência social, às questões mais atuais , como o direito a hora extra, adicional noturno, licença maternidade  e outros –  só foram possíveis com a organização dos trabalhadores na busca por melhores condições de trabalho e na luta pelo reconhecimento de seus direitos.

A redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem qualquer perda salarial, não está sendo diferente. Empenhada em promover mais esse avanço, a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e demais entidades sindicais avançam firmemente na proposta de mostrar aos nossos representantes no Congresso Nacional, independente de partido ou ideologia, que tanto a classe trabalhadora quanto o setor produtivo só têm a ganhar com a medida, que não só se constitui em acalentado avanço para os trabalhadores como em nada prejudicará o processo econômico e sua estrutura de produção.

Não só os trabalhadores, mas toda a sociedade brasileira, ganham com essa importante medida, pois ela significa a criação de aproximadamente mais cinco milhões de postos de trabalho em todo o país. A redução da jornada aumenta a qualidade de vida do trabalhador brasileiro e trás reflexos diretos na produtividade. Tempo para a família, para o lazer, para a leitura, para o descanso, propiciando melhor qualidade de vida e de saúde é a proposta dessa luta, que precisa ser amplamente discutida por todos os segmentos da vida nacional, desde os trabalhadores até os empresários, passando pelo Congresso Nacional e chegando ao governo federal, que tem dado mostras de sua altíssima sensibilidade em assuntos que dizem respeito ao bem-estar do povo brasileiro.

É preciso que os empresários entendam a fundamental questão de se garantir mais qualidade de vida ao trabalhador e sua família.  Não é uma questão de “ociosidade” ou “trabalhar menos”, como se a imensa massa de brasileiros que impulsiona as engrenagens de uma economia que vai muito bem, já não trabalhasse bastante. Nossos trabalhadores são exemplares, estão entre os melhores e mais capazes de todo o mundo, apresentam índices de produtividade invejáveis. Isso sem falar no selo “Made in Brazil”, respeitado internacionalmente pela alta qualidade de tudo o que se produz e se exporta. Ai de nossa economia se não fosse a seriedade e o esforço do trabalhador brasileiro!

Hoje, mais do que nunca, entende-se que qualidade de vida também é fator preponderante para uma economia em ascensão. Quanto menos estressado e sobrecarregado estiver o trabalhador, menor são os riscos de doenças provenientes da estafante jornada, logo, mais produção, mais lucros, mais desenvolvimento. Houve, é certo, também avanços no pensamento do empresariado brasileiro. Em décadas passadas, as pessoas trabalhavam mais, não tinham benefícios e as empresas eram menos sensíveis aos reclamos de seus profissionais. Mas esse pensamento é o reflexo de que as mudanças propostas no passado (e pouco apoiadas na época) estavam certas e os benefícios são iguais para os dois lados. Hoje, temos também um empresariado consciente, competitivo, com preocupações sociais acentuadas e que compreende cada vez mais a necessidade de uma relação equilibrada, decente e transparente entre o capital e trabalho. Dessa harmonia, entre o trabalhador bem remunerado e respeitado e o empresário moderno, nasce uma das economias mais futurosas do planeta.

A mobilização realizada na semana passada pela aprovação da PEC no Congresso Nacional, não deixa dúvidas: nesse segundo semestre, nossos parlamentares deverão aprovar a proposta, garantindo  aos trabalhadores um direito já reconhecido em diversos outros países desenvolvidos. Tenho acompanhado diariamente essa luta, dela participado e mantenho grande otimismo quanto aos seus resultados. Creio, inclusive, que além de uma conquista esperada pela sociedade civil, a redução da jornada de trabalho será um componente importantíssimo na geração de mais mão-de-obra especializada, de mais postos de trabalho, de mais lucro para as empresas além da chegada de uma nova geração de trabalhadores às empresas, oxigenando o mercado de trabalho, a vida empresarial e o próprio país.

A Constituinte de 1988 já ampliou conquistas e direitos dos trabalhadores de forma significativa. O que aconteceu depois disso? Um contínuo desenvolvimento da economia nacional. Quantas empresas quebraram por conta de tais avanços? Nenhuma. Portanto, levantar a voz e brandir qualquer (falso) argumento contra a redução de jornada, é desconhecer a história e não compreender nossa economia, seus sólidos fundamentos e sua ascensão permanente. As empresas não “gastarão mais”. As empresas, isso sim, irão produzir e faturar mais. Trocando em miúdos, todos ganham: os trabalhadores, os empresários e o país. Há algo melhor do que isso, meus amigos?

Por outro lado, também  precisamos investir ainda mais na qualificação de nossos trabalhadores, profissionalizando-os, gerando e agregando valor ao processo produtivo e à vida econômica nacional.  Que possam trabalhar com dignidade, apresentando alto rendimento na produção, seja na indústria, no comércio, nos serviços ou em nosso fabuloso setor agrícola.  Produzir mais,  sem qualquer fardo diário que lhe comprometa a saúde, sem interferir negativamente na vida familiar, mas oferecendo as condições para que se possa se qualificar. Precisamos aproveitar esse  momento singular  para, já no segundo semestre, acabar também com o banco de horas, esse famigerado sistema que escraviza o trabalhador e em nada beneficia o processo produtivo e a vida das empresas.

Vejo com satisfação e confiança que a sociedade, as centrais sindicais, a grande maioria dos parlamentares e a maior parte do empresariado estão unidos em torno dessa causa. Com vitórias se constrói a história das nações. Desses avanços  é que o Brasil se alimenta, se energiza e vai ocupando o seu lugar de destaque no cenário internacional, como a grande potência emergente do século 21.

Delúbio Soares é professor (companheirodelubio@gmail.com)

Artigo publicado no Diario da Manha – Goiânia 03 de setembro de 2009

http://www.dm.com.br/materias/show/t/uma_conquista_de_todos_os_brasileiros