Aprendi ainda menino que o trabalho dignifica. Por mais humilde, por mais simples, por mais singelo, ele é o único caminho para a realização plena do homem como cidadão, como integrante da comunidade, como parte da fantástica engrenagem do mundo e da extraordinária missão de viver. Por isso, no artigo de hoje, quer estender a mão e cumprimentar trabalhadores absolutamente fundamentais para nossa cidade, os garis.
A sociedade conhece pouco ou nada sabe sobre os milhares de homens e mulheres que cuidam, com zelo e amor, da limpeza e do embelezamento de nossa Capital. Há pesquisas que demonstram elevado grau de satisfação com a limpeza urbana, mas o gari é, ao final das contas, quase que um ilustre desconhecido. Quantos de nós conhecemos, já trocamos uma palavra, uma saudação, já ofertamos ou recebemos a retribuição de um sorriso dessa gente boa, guerreira e capaz que são nossos irmãos e irmãs garis? Poucos, muito poucos. Mas sem eles as nossas vidas e o dia-a-dia de nossa cidade se complicariam dramaticamente.
Goiânia é, sem sombra de dúvida, a Capital que possui a melhor qualidade de vida em todo o País. Vá lá que seja absolutamente suspeito para falar sobre isso, já que meu coração bate forte e apaixonado pela Capital do meu Estado. Mas, além da emoção, própria de quem tem no sangue a goianidade viva e pulsante, falo agora com a experiência de quem conhece os mais diversos rincões desse país continental. Com a longa vivência de alguém que palmilhou nosso solo de Norte a Sul, de Leste a Oeste, por múltiplas vezes, seja como estudante, na luta pela formação de grêmios estudantis; como sindicalista, na construção de sindicatos de trabalhadores; como professor, ministrando aulas e fazendo cursos; como dirigente partidário, participando da construção do Partido dos Trabalhadores.
A beleza da nossa cidade está estampada nos cartões postais e guardada na retina dos que nos visitam. Goiânia é hoje a cidade que contém mais áreas verdes proporcionais no Brasil, tirando da bela Curitiba o título de cidade-arborizada. Goiânia está linda, limpa e bem cuidada. A beleza de suas praças, o verde de seus bosques, a exuberância dos canteiros, numa simbiose perfeita com as avenidas movimentadas. Uma paisagem urbana ao mesmo tempo suave e exuberante, que enche de poesia os olhos daqueles que tem na alma a sensibilidade de parar e admirá-la.
Ao falar sobre beleza de Goiânia, recordo-me de uma reflexão que sempre me imponho em meu dia-a-dia. Exaltamos sempre a figura de Juscelino Kubitschek, o inesquecível ex-presidente dos 50 anos em 5, pela coragem e visão de fazer, no coração do país, a nova Capital federal. E não é para menos: JK, que desbravou com talento e maestria o duro Cerrado no coração do País, comandando a marcha rumo à construção de Brasília – contrariando inclusive poderosos interesses políticos – merece todo o nosso respeito. Só que nos esquecemos, quase sempre, das mãos calejadas que levantaram, tijolo por tijolo, os monumentos de Brasília. Dos operários que, muitas vezes longe das famílias, puxaram com braço forte os trilhos do desenvolvimento do País. Eles, sim, foram a alavanca do crescimento que impulsionou o Centro-Oeste rumo ao desenvolvimento, com a vinda de Brasília. Ao lado de Juscelino estavam os candangos.
O mesmo acontece com o pioneirismo do construtor de Goiânia, Pedro Ludovico. Homem de visão futurista, planejou e executou o ordenamento da capital em meio às fazendas de cana-de-açúcar, sabendo que era questão de tempo a expansão da cidade. O patriarca visionário transferiu a capital da antiga Goiás, impressionante patrimônio histórico da humanidade, para nova região, onde haveria crescimento acelerado e melhores condições de abrigar o desenvolvimento que viria. Assim nasceu Goiânia. Teria sido possível tamanho feito sem a presença daqueles que suaram a camisa empregando força bruta na tarefa de construir uma cidade? Não, é claro!
A reflexão é própria para o tema que escolhi para o artigo de hoje. A beleza de Goiânia só existe por conta de quem por ela trabalha. Muitas vezes olhamos apenas o belo e não lembramos que existem pessoas que acordam cedo e trabalham, dia e noite, para que a cidade fique com esse visual agradável de se ver. Trabalhadores da limpeza pública, centenas de homens e mulheres que carregam nas mãos calejadas a responsabilidade de cuidar de algo a que damos imenso valor: o visual da cidade onde vivemos. Porque o trabalho desses valorosos profissionais, os garis, os coletores, os jardineiros, não está ligado simplesmente ao fator “limpeza”. É muito mais. É a nossa autoestima de cidade-modelo que estão preservando, pois a rua é a extensão da nossa casa, é a continuidade de nossos lares.
E a sociedade, aos poucos, começou a compreender a grandeza desse ofício. Tanto que elegeu para ocupar uma das cadeiras na Câmara Municipal de Goiânia, o hoje vereador Gari Negro Jobs, que apresentou proposta para tornar feriado o Dia do Gari. Louvável, para quem realmente tem orgulho da categoria a qual pertence. Mas é bom frisar – e tenho certeza que o vereador sabe disso – que o gari não tem dia. Todo dia é o dia do gari. Faça chuva ou faça sol, lá estão eles e elas – sim, por que metade dessa força de trabalho são mulheres –, trabalhando arduamente para nos presentear com a beleza, a limpeza, a alegria e as cores de nossa cidade-modelo, padrão em qualidade de vida.
E o trabalho dos profissionais da limpeza pública não está somente na varrição, coleta de lixo, pintura dos meios-fios e roçagem de lotes. Além da limpeza, da arborização e do ordenamento das praças, não podemos deixar de notar que Goiânia está desfrutando de uma iluminação exemplar, destacando ainda mais a beleza dos nossos parques e jardins, tanto quanto aumentando a segurança das pessoas que trafegam no período noturno. O nosso aterro sanitário é bem cuidado, e diferente do que acontece em outras metrópoles, não possui nenhum catador de lixo em suas dependências.
Importante também ressaltar a gestão sólida da qual fazem parte esses trabalhadores. Com políticas públicas voltadas à qualificação profissional, a Comurg se destaca por possuir em seus quadros mais de 300 estudantes universitários, e outros 40 que já são formados. Para tornar mais eficiente o trabalho da limpeza pública, criou pontos de apoio espalhados em diversos bairros da cidade, descentralizando o serviço. A medida, além de facilitar ainda mais o trabalho de limpeza da cidade, também favoreceu o trabalhador, que passou a trabalhar mais próximo de sua própria casa.
Essa união de forças – administração pública e trabalhadores comprometidos – faz com que nós, goianos e goianienses, sintamos orgulho da nossa capital.
Aos garis de Goiânia, aquele abraço!
Delúbio Soares é professor (companheirodelubio@gmail.com)




