Ninguém que se perde no caminho de volta

Artigo publicado no Diário da Manhã – GO – 20/08/2009

(*) Delúbio Soares

“O que vale na vida
não é o ponto de partida
e sim a caminhada.
Caminhando e semeando,
no fim terás o que colher”

Cora Coralina

Infeliz do homem que não consegue se relacionar de forma respeitosa com os demais. Eu, felizmente, não conheço outra forma de compreender a realidade e criar concepções sobre os mais diversos assuntos senão por meio do diálogo franco, direto e decente. Sempre formo minhas convicções e defino os meus valores a partir de uma base sólida de debate e exposição de pensamentos. Pontos de vista que convergem e divergem entre si, e geram riqueza de opinião, conceitos, valores e juízos.

Não creio no homem de opiniões formadas, inequívocas e absolutas. Acredito naqueles que conhecem o dinamismo do mundo e entendem que as idéias são formas de compreensão da vida, e delas tiram proveito naquilo que entendem por certo. Não tenho verdades absolutas e as repilo. Lembro-me do saudoso e genial Raul Seixas, ao preferir ser “uma metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Se alguém estiver esperando de minha parte uma baixaria no debate político, um ataque pessoal a qualquer adversário, um adjetivo desairoso, a manifestação de um sentimento menor, a exteriorização de alguma mágoa inexistente ou a verbalização de um ressentimento que jamais tive, vai esperar sentado, debaixo de um frondoso jequitibá, numa cadeira de balanço e na beira de um riacho bonito. Vai esperar e não verá, ouvirá ou irá saber de nada disso.

O fato de você ter uma opinião, acreditar numa idéia, ser filiado a um partido, seguir determinada ideologia, ou até mesmo sentir antipatia por algum líder político, não lhe dá o direito de ser desrespeitoso, maledicente ou agressivo. Muito ao contrário: quem tem alguma idéia, é filiado a algum partido e professa uma ideologia, precisa gerar valores positivos e dar-se ao respeito, começando por respeitar que não pensa da mesma forma. Recordo-me dos embates com os duros governos de  Irapuan Costa Júnior e Ary Valadão, ao lado de meus colegas professores. Fiz oposição radical, mas nunca faltei com o respeito para com eles, seus familiares ou assessores. E quem mistura a ação política com o desrespeito pessoal colhe desilusões e fracassos.

Em mais de três décadas de militância sindical e política, consegui manter a urbanidade e conviver com respeito com adversários. Tive a sorte de compreender ainda muito jovem que o antagonismo de ideais não pode gerar a animosidade pessoal, muito menos o desrespeito humano. Tive e tenho amigos que não pensam como eu, não são de esquerda e nem votam nela. E são bons e queridos amigos. Talvez essa seja a chave de um segredo que não faço questão de guardar: depois de enfrentar grandes dificuldades no campo político, preservei a alegria de ter amigos em todos os partidos e de várias ideologias, solidificando laços que nasceram de afinidades e de respeito mútuo.

Ainda agora, quando reinicio minha militância política, independente de qualquer possibilidade eleitoral ou engajamento partidário, sinto-me reconfortado com milhares de manifestações espontâneas de apoio, de pública solidariedade, de insuspeitados carinho e incentivo. Delas tenho me alimentado e faço de cada uma, vindas dos mais distantes rincões desse Brasil de meu Deus, uma bandeira de luta e uma chama a clarear o meu caminho.

Quando alguns meses atrás, milhares de companheiros petistas de todo o país, lançaram um forte movimento em favor de meu retorno ao partido que ajudei a fundar no já distante ano de 1979, senti que a caminhada continua e tão cedo não terminará. Esses amigos se aglutinaram em torno de um blog criado pela bióloga carioca Letícia Rodrigues, amiga a quem sequer conheço pessoalmente: o “Companheiro Delúbio”.  E colheram entusiásticas e generosas manifestações de incentivo, de apoio, de solidariedade e de desafio a continuar lutando pelo país justo e generoso com o qual sempre sonhei.

Recebí, emocionado, o apoio de gente que vai do senador Eduardo Matarazzo Suplicy, meu amigo, a filiados a outros partidos, como José Ibrahim, célebre líder da primeira grande greve contra a ditadura de 64, hoje importante liderança do Partido Verde. E também empresários, estudantes, políticos, intelectuais, sindicalistas, colegas professores, artistas, amigos e conterrâneos de Goiás. E gente que não conheço, que nunca vi, que nada me deve, mas que tocaram fundo meu coração de velho guerreiro das causas populares.

Ninguém gosta de sofrer, não é bom passar pelos dissabores que passei e que, graças a Deus, superei e não geraram revolta ou qualquer rancor. Mas receber os apoios que recebi, saber que é possível manter um diálogo em tom elevado e de forma produtiva, é reconfortante e estimula a continuidade da luta.

Foi assim que se decidiu transformar o blog de Letícia em um site, o www.delubio.com.br, onde vamos discutir o Brasil, Goiás, nossos problemas, nossas perspectivas, a educação, a economia, a agricultura, dar espaço aos movimentos sociais e a todos os setores de nossa sociedade. A internet é um fenômeno inequivocamente democrático quando utilizado de forma séria e responsável. E é assim que iremos fazer com esse novo espaço de atuação política e discussão dos grandes temas do interesse de Goiás e do Brasil.

Esse site já está no ar e tem reproduzido os artigos que publico todas as quintas-feiras neste Diário da Manhã, além de trazer uma série de matérias de variados temas e interesses, sempre num patamar elevado de discussão democrática e pluralista, sem resvalar para a politicalha ou faltar com o respeito para com os que não comungam de meus ideais ou não pensam como eu.

Além disso, todas as manifestações que recebi nos últimos meses foram reunidas em uma revista, que meus companheiros generosamente mandaram editar e agora distribuem. É coisa simples, impressa em preto e branco e sem qualquer luxo, mas muito bem feita e com um farto material para discussão e esclarecimento, além de trazer a reprodução de manifestos, discursos, cartas, notícias publicadas em órgãos da imprensa, abaixo-assinados e documentos políticos da maior importância para mim e para todos os que me tem apoiado.

Hoje, as 19:30 hs, na sede da CUT, estarei ao lado de amigos de Goiânia e do interior lançando tanto o site quanto a revista. É um momento significativo para mim e meus companheiros, que nos reunimos novamente e renovamos nossos compromissos com a democracia, a justiça social e a luta pela emancipação de nosso povo. Espero contar com a presença de todos. Quem passar por lá, tenha certeza, será muito bem-vindo.

É um momento especial e quero reparti-lo com todos. Já se disse que voltar é uma forma de renascer, e que ninguém se perde no caminho da volta.

(*) Delúbio Soares é professor
www.delubio.com.br
companheirodelubio@gmail.com