
(*) Delúbio Soares
Em 1964, eu tinha 9 anos de idade e, estudando e trabalhando em Buriti Alegre, não sabia o que se passava além do meu pequeno mundo. O presidente João Goulart, um brasileiro generoso e com ideias progressistas, era deposto e rumava para o exílio. Meses depois, Mauro Borges também seria retirado à força do Palácio das Esmeraldas, sob ameaça de bombardeio. E o País mergulhava em mais de duas décadas de escuridão.
Quinze anos depois, aos 24 anos de idade, participava da campanha das “Diretas Já!”, um dos movimentos mais belos e marcantes da história política brasileira. Em 1979, já havia me engajado na luta pela anistia ampla, geral e irrestrita, dando início à minha militância política e ao meu comprometimento com a vida pública.
Parece que foi ontem, mas, nesta semana, celebramos as três décadas da aprovação da anistia e do retorno dos cassados, dos banidos e dos exilados à vida pública nacional. “Comemorar” não é, de longe, a melhor definição para as ações e atividades que foram e estão sendo desenvolvidas nesta semana em todo o País a respeito desse feito histórico. Podemos e devemos nos lembrar que a luta pela anistia é a prova maior de que a união de forças – movida pela injustiça e a indignação – sempre é o melhor caminho na luta contra a opressão e o autoritarismo. Mas não podemos “comemorar” a data, senão, lembrar a vitória alcançada e honrar a memória dos irmãos e irmãs que ficaram pelos caminhos da luta.
Não há resgate histórico para os que perderam suas vidas, doaram suas juventudes, sonharam generosamente um Brasil mais justo e terminaram nos paus-de-arara, massacrados em interrogatórios brutais, sacudidos nas sessões de choques elétricos, jogados na escuridão do mar, torturados cruel e impiedosamente até o último segundo de vida. Nada os trará de volta. Nem a dor sentida por suas famílias, que não velaram seus mortos e nem enterraram seus corpos, dando-lhes sepultamentos dignos e cristãos, será compensada por qualquer tipo de indenização pecuniária.
Se hoje podemos exercer o direito de expressarmos livremente o nosso pensamento, sem as amarras do cerceamento arrogante da censura, se podemos exercer o direito de nos filiarmos a partidos dos mais diversos credos ideológicos, se podemos viver ativa e intensamente a vida política e institucional da Nação, saibamos que isso é fruto do idealismo, da luta e do sofrimento dos que enfrentaram, das mais diversas formas, o mais duro e tenebroso período de nossa vida republicana. Foram mulheres e homens que doaram suas vidas generosamente para que vivêssemos hoje numa democracia plena.
Por formação humanista, por convicção política, pelo meu credo democrático, não sou homem dado a qualquer tipo de revanche, vingança ou acerto de contas. Olhar para frente e seguir adiante é, sempre, o melhor caminho, seja na vida pessoal, seja na atividade política. Mas nunca se deve olvidar o passado, nem deixar de buscar a verdade, nem negligenciar os capítulos mais sofridos e menos decentes da história de nosso país. Relembrar o passado e buscar entendê-lo melhor é uma forma efetiva de evitar a sua repetição.
Quando cheguei a Goiânia, na década de 1970, a ditadura já havia mostrado a sua face mais mesquinha e violenta. A imprensa, sob ação diuturna e vigilante dos censores, fora empastelada. O AI-5, em 1968, não deixava dúvidas de que um longo período de brutalidade política viria pela frente. Os direitos constitucionais foram usurpados dos cidadãos. Políticos da oposição tinham os seus mandatos cassados. O MDB, partido da oposição, já tivera vários dos seus melhores parlamentares cassados e presos. A meia-voz, se comentava a escalada de prisões, torturas e mortes. Vivíamos uma fase de terror oficial, coisa ainda desconhecida de nosso povo.
Nas ruas, nas escolas, nas repúblicas de estudantes, nos espetáculos teatrais, nos cinemas, todos eram vigiados e tudo era motivo de desconfiança. Já se falava de José Porfírio, de Marco Antônio Dias, do brilhante goiano Honestino Monteiro Guimarães, presidente da UNE. Assassinados.
Sem se esquecer de outras figuras excepcionais como Euler Ivo, Tarzan de Castro, Pinheiro Sales, Aldo Arantes, Santa Cruz, Valdi Camárcio, Valterli Guedes e tantos outros que empunharam a bandeira da luta em favor dos direitos democráticos e combateram a ditadura, pagando o preço da proscrição política, amargando perseguições e várias passagens pelos cárceres.
Já era um ativista político e notava que as pessoas passaram a ser opor mais aberta e frontalmente contra a ditadura, perdendo o medo e clamando pela volta à democracia de antes de 1964. Os movimentos estudantis se reorganizavam e se tornavam mais fortes, saindo às ruas em passeatas e manifestações em defesa da liberdade. Apanhávamos, sentíamos a fúria dos cassetetes debruçados com força em nossas costas, mas éramos maiores que o medo que eventualmente se poderia sentir.
Demais setores da sociedade organizada começaram a pressionar pela anistia, pela volta dos exilados, pela reintegração de todos os cidadãos na vida política de Goiás e do Brasil. Familiares de presos políticos desaparecidos também se organizaram, como dona Maria de Campos Batista, mulher marcante, uma guerreira na defesa intransigente da verdade, que, infelizmente, morreu sem saber o paradeiro de seu filho, Marco Antônio, em um acidente na estrada entre Brasília e Goiânia, ao voltar de uma audiência com o vice-presidente, José Alencar.
A história dessa goiana é um hino de amor à liberdade e de busca da verdade histórica. Quem sabe, pelos desígnios de Deus, foi lá que reencontrou o filho que a brutalidade dos homens lhe arrancou dos braços!
Relembremos as três décadas da Lei da Anistia. Comemoremos esses anos todos de democracia. Mas aprendamos a lição dura e sofrida e jamais se permita o retorno de qualquer tipo de ditadura, seja de direita ou de esquerda. Nada, nada, jamais, em tempo algum, substituirá a liberdade, cuja morada será o coração de cada brasileiro.
Delúbio Soares é professor (companheirodelubio@gmail.com)




