Asas para Goiás

A história está repleta de exemplos: as grandes civilizações desenvolveram-se ao longo dos grandes rios. Tanto quanto à beira do mar, povos e cidades experimentaram o progresso utilizando-se das naturais facilidades dos grandes cursos aquáticos. Milênios depois, desde a metade do século passado, a aviação tomou o lugar da navegação heroica e desbravadora. Os argonautas, os descobridores, os “lobos-do-mar” foram substituídos – e não sem considerável ganho – por executivos apressados, operosos comerciantes, industriais em busca de novos mercados ou, simplesmente, de viajantes na melhor acepção da palavra: gente que sabe que o outro nome da paz é o turismo, essa indústria sem chaminés e não poluidora que gera milhões de empregos e bilhões de divisas.

Se os portos foram, são e serão insubstituíveis no carregamento ou na recepção de produtos agrícolas, de máquinas pesadas, de componentes eletroeletrônicos, de veículos automotores e muito mais, os aeroportos adquiriram uma importância singular na vida das pessoas e dos países. O que os navios, os trens e os caminhões carregam num infindável corre-corre pelos mares, rios, ferrovias e estradas mundo afora, alguém vendeu, comprou, negociou ou propagandeou bem antes. E de avião.

As civilizações de hoje florescem sob a égide da tecnologia da informação, da economia globalizada e – acreditem – de um bom sistema de transporte aéreo. Goiás, nessa área, está perdendo não o bonde da história, mas poderá perder o voo para o futuro.

O Aeroporto Santa Genoveva já deu o que tinha que dar. E deu muito. Prestou ao longo de décadas os melhores serviços à população goiana e ao desenvolvimento do Estado. Sua pista tem boas dimensões, comporta aviões de grandes fuselagens, mas o terminal está visivelmente saturado, não correspondendo nem à expectativa dos usuários e setor de cargas e muito menos às exigências do notório crescimento do tráfego aéreo em Goiânia.

Vivemos uma situação que, se não chega a ser vexatória, é, no mínimo, pitoresca e traz em seu bojo uma constatação cruel. Ao chegar à bela capital dos goianos, o viajante menos precavido vislumbrará uma cidade moderna, de inequívoca beleza, bem planejada, com um visual agradável e denotando o sentido progressista de sua gente. Depois de taxiar numa pista bastante razoável, ele irá se deparar com um terminal acanhado, interiorano, insatisfatório e visivelmente ultrapassado.

As instalações do aeroporto de Goiânia estão se transformando em um gargalo para o desenvolvimento do Estado!

Há cidades bastante menores, com populações quatro ou cinco vezes inferiores à nossa, com tráfego aéreo de apenas 20% ou 30% (quando não menor, ainda) do que temos, e apresentam terminais confortáveis e amplos, instalações avançadas no quesito tecnológico, equipamentos de última geração como os finger’s (aquelas rampas que ligam a aeronave ao terminal diretamente), propiciando tanto aos usuários do transporte aéreo quanto aos que trabalham na aviação, sejam aeroviários ou aeronautas, a modernidade compatível com a importância estratégica do setor.

Não é por termos bem perto, ali em Brasília, o terceiro aeroporto mais movimentado do País que devemos nos conformar com o quase despojamento do Santa Genoveva. Goiás é Goiás, tem imenso valor e ponto final!

Novas empresas aéreas passaram a operar voos diretos ligando Goiânia a diversas capitais, quando não conexões e horários os mais variados, e o  terminal de passageiros em vários horários do dia transborda de usuários, com filas imensas, com desconforto e incômodo para os que chegam e os que partem, além de inviabilizar o acréscimo de voos e o consequente aumento da oferta e a possibilidade de mais concorrência e menores tarifas.

O avião faz parte da vida dos goianos e da história de Goiás.  A aviação se funde com o desbravamento da Ilha do Bananal, norte de Goiás, hoje Estado de Tocantins, da epopeia de JK e dos candangos na construção da nova capital e do próprio nascimento de Goiânia. Acreditar que possamos avançar sem resolver esse verdadeiro gargalo em que se converteu o velho e respeitável Santa Genoveva é fugir à realidade que se impõe: somos uma sociedade que progride a olhos vistos e não possuímos um aeroporto de nível nacional, quem dirá internacional.

Goiás tem dois aeroportos: Goiânia e Caldas Novas. E mais 54 aeródromos completam nossa razoável malha aeroportuária. Ainda é pouco. Onde houver uma cidade de porte pequeno-médio para cima, onde existir um empresário empreendedor, nos locais onde a natureza nos brindou com alguns dos cenários turísticos mais belos de todas as Américas (Alto Paraíso, Caldas Novas e sua deslumbrante Chapada, o Vale do Araguaia e seu exagero de luz, beleza e alegria), onde a agroindústria e serviços se desenvolvem de forma impressionante cercando de riqueza as cidades e colorindo de verde o que antes era cerrado duro e desafiador, lá está o solo fértil para um novo aeroporto.

Assis Chateaubriand, na virada dos anos 40, com a genialidade e a petulância que a posteridade celebrou, encheu o País de aeroclubes com as pequenas e eficientes aeronaves, monomotores onde se formaram (e ainda se formam!) alguns dos melhores pilotos do mundo. O Brasil da industrialização, das usinas siderúrgicas de Volta Redonda, Usiminas, Cosipa, Tubarão, da Petrobras, das indústrias de base florescidas sob a égide de Getúlio e consolidadas por Juscelino, se encontrava com a sua realidade de nação-continente e fazia da aviação um instrumento indispensável para o seu desenvolvimento e integração.

Faço uma aposta com os olhos no futuro: se conseguirmos em curto prazo resolver a fundamental questão do Santa Genoveva, dotando Goiânia de um aeroporto com características internacionais, nos surpreenderemos com o efeito espantoso em nossa economia, debelando a demanda reprimida e gerando imenso valor para nossa terra.Voa, Goiás! 

Delúbio Soares é professor (companheirodelubio@gmail.com)