“Seo” Catonho

Artigo publicado no Diário da Manhã – GO- 06/08/2009

“Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia
Eu sozinho, menino entre mangueiras
lia história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais. (…)

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé”
(“Infância”, Carlos Drummond de Andrade)

Lá longe, no clarão da memória onde se encontram abrigados os exemplos que frutificam e constroem, lá onde o tempo e os sofrimentos não chegam simplesmente por não existirem, lá no fundo da alma, onde nem o branco que avança cobrindo boa parte dos cabelos consegue espantar o menino que todos nós guardamos quase que secretamente, é lá que mora o meu pai.

Não seria o assunto para um artigo corriqueiro, no encontro semanal com os leitores do Diário da Manhã. E tenho a pretensão de não ser nem piegas e nem meloso, apenas verdadeiro. É que em poucos dias iremos comemorar exatamente o “Dia dos Pais”, tão comercial, tão explorado, tão sem emoção, dizem que instituído pelas artes, manhas e espertezas de um francês fabricante de gravatas.

Quando olho para trás, no recôndito da infância pobre, mas feliz, humilde, mas abençoada, nas terras distantes de Buriti Alegre, começo a compreender mais e mais a importância de meu velho e querido pai, o “seo” Catonho. Que figura! Que exemplo!

É possível, é mais que provável, que nem ele já tenha se dado conta de sua trajetória bonita de vida. Nem tem a vaidade ou a pretensão de fazê-lo. Jamais lerá esse artigo, analfabeto que é, de pai, mãe e parteira. E aí começa o impressionante, o extraordinário, o bendito e generoso exemplo de vida de quem, às vésperas de seus 80 anos, consegue ser um homem sábio sem nem saber ler; um homem visionário, sem jamais ter desenhado uma letra sequer do alfabeto. É o mistério de uma vida simples, de uma existência discreta. Renunciou à pretensão de ser muito mais, de ter mais do que pode, para ser feliz e realizado.

Meu pai é um dos 17 rebentos de dona Joana Rocha. Além dele, vivos estão poucos: Iracema, Ivoni, Silvia, Célia, Elma, João Santos, Maria Divina (mãe de 13 filhos) e Wolney. Joana morreu aos 69 anos, numa existência em nada diferente da de milhões de mulheres mães de família que devotaram suas existências a criar seus filhos, na pobreza e na virtude.

A infância, a adolescência, a idade madura, a velhice e – espero que demore séculos a chegar – o fim de meu pai será fazendo o que gosta, o que sabe, o que lhe mantém vivo, o que lhe proporcionou constituir família e criar todos os filhos, formando-os no meio da natureza, soltos nas terras do interior, montando cavalo, empunhando a enxada, trabalhando de sol a sol, de segunda a domingo, todos os dias do ano, sem blasfemar contra a dureza da vida ou as vicissitudes do destino. Desconfio, cá com meus botões, que ele é, no fundo, um homem extremamente feliz.

Catonho calçou sapato pela primeira vez em sua vida aos 21 anos de idade. Era uma botina e a ocasião exigia tal feito: 13 dias antes havia conhecido Jamira e se casaram. Amor à primeira vista, casório imediato. Ainda hoje estão juntos, 58 anos depois daquele dia festivo, confirmando o acerto do que fizeram apesar da rapidez incomum. Os desígnios de Deus e os caprichos do destino fogem à compreensão da raça humana…

Nascido em Itumbiara, órfão ainda menino, foi caseiro em várias fazendas na região de Buriti Alegre. Comprava e vendia bezerros, porcos, cavalos… (conhecido no interior como catira) com rara aplicação e faro, assim complementando sua pequena renda. Não conheci até hoje, em lugar nenhum desse País, alguém que conhecesse melhor esse ofício do que o meu pai. Avaliava de olho a qualidade dos animais e sabia como, onde e a melhor maneira de comercializar os novilhos. Trabalhava – como ainda hoje trabalha – de sol a sol, incansável e com incrível disposição para o cultivo.

Peão de fazenda, tempos depois já era retireiro, cuidando do pequeno pedaço de terra, do “retiro”. Depois de mais alguns anos, meeiro: roça pequena e parceria nos resultados. Em 1967, já tem 22 alqueires de terra. Os filhos pequenos o ajudam na lavoura e, ao mesmo tempo, frequentam a escola.

Todos nós, os quatro pequenos filhos do casal Jamira e Catonho, já havíamos adentrado o universo das letras, ainda hoje desconhecido para ambos. Mas, ainda assim, eles foram, são e continuarão a ser mais sábios que os filhos que fizeram estudar e que formaram.

Hoje, quatro décadas depois, meu pai tem 50 alqueires, umas poucas vacas – que ele faz questão de todos os dias ordenhar e minha mãe de fazer o queijo – outros tantos cavalos, bezerros e garrotes, uma paz de espírito inabalável e um exemplo de vida a ser seguido. Cresce meio alqueire a cada ano, e a cada dia cresce mais como ser humano. Jamais o flagrei num momento de descanso, nunca em uma demonstração de preguiça. Tenho claras nas retinas as imagens imorredouras da infância: montando cavalo, tangendo o gado, cuidando das galinhas, ordenhando as vacas pouco antes que o primeiro galo cantasse.

Uma das características mais marcantes do meu pai é a positividade. Homem de decisões firmes, não titubeia em suas ações, ou, como diz num ditado da época, “não rodeia toco”. A situação da vida não era fácil, mas nunca o vi desfalecer diante das dificuldades. Pelo contrário, sempre arregaçou as mangas e foi à luta em busca de uma vida melhor para os filhos. Na década de 70 era assim: os filhos trabalhavam com os pais e ajudavam no sustento da casa. Acordávamos cedo para trabalhar, íamos à escola e, quando voltávamos, o trabalho estava novamente à espera. Era a cultura do interior naquela época, que ainda carrego guardada no peito, na memória, na alma.

Tenho claro para mim que tive a sorte de nascer filho de um desses grandes homens a quem a história não marcará. Mas são, justamente eles, os que fazem a história. São esses Catonhos os que movem a engrenagem da vida, que constituem famílias, que passam por dificuldades e não esmorecem em nome do ideal de educar seus filhos. São esses Catonhos os agentes das transformações sociais, plantando, colhendo, tirando da terra o próprio sustento e contribuindo para a grandeza do País.

Esteio de nossa família, econômico nas palavras e generoso nos exemplos, é o conselheiro, é o amigo, é o velho guerreiro que nos orgulha e nos estimula.

Alguém há de ler esse artigo para esse velho firme, de olhar penetrante, de mãos calosas, de silêncios eloquentes, que detesta sair de seu Buriti, que despreza qualquer manifestação de arrogância ou de riqueza, que conhece a terra, o sol, a chuva, os pássaros, os mistérios da natureza e o verdadeiro sentido da vida. Alguém há de lhe fazer saber que, na sua figura fabulosa, o filho que o adora homenageia todos os pais, todos os que fizeram por onde ser queridos e respeitados.

Dizer que amo o “seo” Catonho – acreditem – é ainda pouco, muito pouco.

Delúbio Soares é professor (companheirodelubio@gmail.com)