* Denize Bacoccina e Rodolfo Borges
Nos últimos dias, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, apareceu pouco. Ele tem estado recluso desde que a empresa anunciou seus planos de expandir o capital, em maio. Gabrielli só quebrou o silêncio na segunda-feira 21, justamente para anunciar o que pretende fazer com os recursos que quer captar no mercado nos próximos meses.
“Esse plano é o maior desafio da nossa história, mas nós vamos conseguir realizá-lo”José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras
Trata-se do maior plano de expansão já previsto pela indústria brasileira. São US$ 224 bilhões que serão gastos até 2014, dos quais 95% em negócios no Brasil. É quase duas vezes o valor de mercado da empresa, e também mais do que o dobro do valor da inglesa BP, uma referência no setor, hoje em crise com o vazamento de petróleo no Golfo do México.
A produção deve aumentar dos atuais 2,7 milhões de barris por dia para 3,9 milhões em 2014. “Nenhuma outra empresa de energia vai crescer tanto quanto nós”, disse Gabrielli no lançamento do plano, no Rio de Janeiro. Com isso, ele espera alcançar a liderança mundial na produção de petróleo durante esta década. A notícia não poderia ser melhor para as empresas brasileiras. São 686 projetos. E o mercado nacional será responsável por 67% dos contratos, o equivalente a um gasto de US$ 28,4 bilhões ao ano, 40% mais do que no projeto anterior.
US$ 118 bilhões serão investidos na área de exploração, o que inclui a compra de sondas de plataformas
O plano coloca a Petrobras num momento decisivo de sua história por várias razões. Primeiro, por seu próprio gigantismo. Segundo, porque afeta a vida de um milhão de investidores da companhia – a Petrobras é a empresa brasileira que mais tem acionistas. Terceiro, porque o mercado ainda tem dúvidas sobre a capitalização.
O fato é que, se houver o aporte dos acionistas, a nova Petrobras será muito maior do que a atual. Até porque mais da metade dos recursos – US$ 118,8 bilhões – será aplicada em exploração e produção (gráfico na página ao lado). O refino fica com 30% do total, US$ 73,6 bilhões, e ilustra a determinação do presidente Lula de usar a companhia também para fazer política industrial.
O presidente Lula, com a primeira amostra de óleo do pré-sal,que receberá investimentos de US$ 33 bilhões nos próximos anos
Com isso, a capacidade de refino deve subir de 1,8 milhão de barris de petróleo por dia em 2009 para 3,2 milhões em 2020, acompanhando o aumento da produção. “Vamos fazer isso olhando para as exportações”, disse Gabrielli. A empresa também vai aumentar os investimentos em biocombustíveis e entrar com mais força no mercado de fertilizantes, outra antiga demanda da agricultura brasileira, atualmente dependente de insumos importados.
Na semana passada, a Petrobras anunciou ainda uma parceria estratégica com o grupo São Martinho, criando a Nova Fronteira Bioenergia, para a expansão da produção em Goiás, o que a tornará a segunda ou terceira maior produtora de etanol do País. “Essa empresa nasce com alta capacidade de investimento”, diz Fábio Venturelli, presidente da São Martinho. “E tem muita sinergia com outros ativos da Petrobras”, completa Miguel Rossetto, responsável pela área de biocombustíveis na estatal.
Entre os fornecedores, os novos planos da Petrobras foram comemorados. O presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base, Paulo Godoy, diz que eles mostram que o setor de petróleo e gás deve continuar representando metade dos investimentos produtivos no País.
“Isso está trazendo um movimento fantástico de investimento em engenharia, geologia, estaleiros e equipamentos. “O gasto da Petrobras é muito importante para sustentar o nosso crescimento, principalmente se levarmos em conta que será feito por uma empresa que não está tão sujeita quanto as outras ao ciclo econômico”, avalia o economista Julio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, lembrando o efeito multiplicador do setor de petróleo.
O diretor do Conselho de Óleo e Gás da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, Nelson Delduque da Costa Junior, é mais cético quanto à capacidade da Petrobras de realmente privilegiar o fornecedor nacional. “Temos que ver se isso vai mesmo acontecer”, afirma.
Mas se há um setor que deve sua expansão aos planos da petroleira é a indústria naval. Para o diretor comercial adjunto do Estaleiro Atlântico Sul, Ricardo Menezes, o plano confirmou as melhores expectativas da empresa. “Estamos nos preparando desde que foi anunciado o pré-sal, no final de 2007, e saímos na frente”, diz ele. Localizado no Porto de Suape, em Ipojuca (PE), o estaleiro trabalha numa encomenda de 22 navios para a Transpetro e constrói o casco da plataforma P-55, da Petrobras.
O volume de encomendas da Petrobras fez renascer diversas indústrias no Brasil, como a de grandes estaleiros
O presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore, Ariovaldo Rocha, compartilha do otimismo. Com a oficialização do plano, diz ele, as construtoras de navios petroleiros e sondas de perfuração sabem que os projetos “podem seguir conforme o planejado”.
A Petrobras já tem 26 sondas contratadas, e deve encomendar outras 28 com prazo de entrega entre 2013 e 2020. O primeiro lote de sondas foi contratado em licitação internacional. Já o segundo lote, com o processo de licitação em andamento, será construído nos estaleiros brasileiros. Com isso, o número de sondas deve saltar de cinco em 2009 para 53 em 2020.
Com tudo no etanol: parceria anunciada por Rossetto (à dir.), da Petrobras, e Venturelli (à esq.),da São Martinho, cria uma megausina
Mas se o elevado valor de investimentos é motivo de comemoração, também acende uma luz amarela sobre a viabilidade financeira. “O anúncio de investimento é excelente, porque superou nossa expectativa. Mas gera uma preocupação: de onde sairão esses recursos?”, questiona o presidente em exercício da Federação da Indústria do Espírito Santo, Ernesto Mosaner Júnior.
Ele está preocupado com o adiamento da capitalização da Petrobras, que será feita em setembro deste ano, e com a mudança no sistema de exploração do pré-sal, de concessão para a partilha. “A mudança reduz a condição de aporte de capital externo”, afirma. A incerteza sobre o financiamento também é a preocupação de boa parte dos analistas do mercado financeiro.
Apesar das boas perspectivas para o futuro, as ações da companhia, que já vinham em baixa, caíram após o anúncio do plano. Entre a segunda-feira 21 e a quinta-feira 24, a queda foi de 6,8%. Desde o início do ano, as ações da Petrobras já perderam 23,96% do valor. Sem a expansão de capital, a empresa pode ultrapassar o limite de 35% de alavancagem e prejudicar o seu rating nas agências de investimentos. Na semana passada, havia boatos, negados pela Petrobras, de que a Fitch reduziria a nota da empresa, retirando o seu atual grau de investimento.
No plano de investimento, a Petrobras estima que vai precisar de US$ 58 bilhões, via capitalização e financiamento. A capitalização, estimada pelo mercado em até R$ 100 bilhões, será a maior já realizada nos mercados de capitais. Teoricamente, uma empresa como a Petrobras, com volume significativo de reservas já comprovadas e acesso privilegiado às imensas reservas brasileiras do pré-sal, não teria dificuldades para captar esses recursos.
O problema é que o governo quer pagar a sua parte no aumento do capital com barris de petróleo do pré-sal. É a chamada cessão onerosa, que já foi aprovada pelo Congresso mas ainda não ultrapassou todas as barreiras técnicas. A empresa gostaria de realizar o lançamento das ações em julho, antes das férias no Hemisfério Norte e das eleições no Brasil. Mas foi informada pelo governo que não pode fazer o lançamento antes da certificação e a definição do preço das reservas pela Agência Nacional de Petróleo – o que causou o adiamento para setembro.
De todo modo, os números são tão grandes, e aparentemente tão bons para todo mundo, que às vezes fica difícil entender a desconfiança do mercado que teme que alguns investimentos não tenham o retorno adequado. “A refinaria do Maranhão foi uma escolha política, já que não existe produção naquela área. Obviamente o projeto é bom para o Estado, mas para a Petrobras seria melhor exportar petróleo e refinar no porto do destino”, diz o economista Walter de Vitto, analista de energia da Tendências.
A operação é tão importante que já movimenta o ranking dos bancos. Os seis escolhidos – os brasileiros Banco do Brasil e Bradesco, os americanos Bank of America Merrill Lynch, Citigroup e Morgan Stanley e o espanhol Santander – já garantem uma melhora de posição no ranking de emissões de ações.
Uma simulação da Thomson Reuters mostra que as operações da Petrobras e do próprio Banco do Brasil – que vai ampliar seu capital em cerca de 11% – garantem boas colocações para os bancos brasileiros. O BB, líder no mercado brasileiro, agora fica em quarto lugar no ranking mundial, atrás de Morgan Stanley, Bank of America Merrill Lynch e Citi.
Outra incerteza despertada a partir do anúncio da capitalização bilionária é se, com tantos recursos canalizados para a Petrobras, haverá dinheiro disponível para os outros setores da economia, especialmente obras de infraestrutura. “Todo mundo vai brigar pelos mesmos recursos nos próximos anos.
O medo de muitos analistas é que, uma vez feito o lançamento, seque o mercado e acabe o espaço para outros investimentos”, diz o sócio da consultoria LCA Fernando Camargo. Além disso, fornecedoras da Petrobras também vão ter que se financiar para atender às encomendas. “Será preciso criar mecanismos para atender a essas empresas”, diz o economista da LCA.
A Petrobras já está atenta ao problema. Entre os desafios citados por Gabrielli para implementar o plano, estão o financiamento dos investimentos e a qualificação da mão de obra para atuar em tantas obras. “Não só para a Petrobras, mas para a cadeia de suprimentos do Brasil. É um plano desafiador, mas temos certeza que seremos capaz de implementá-lo”, afirmou Gabrielli.
O que o acionista deve saber
A Petrobras é a empresa brasileira que mais tem investidores e muitos têm dúvidas sobre o processo de capitalização
Claudio Gradilone
1) O que é o movimento de capitalização da Petrobras?
A Petrobras é uma empresa aberta, ou seja, com ações negociadas na Bolsa de Valores. Isso quer dizer que ela pode captar dinheiro vendendo “pedaços” de seu capital, que são as ações. O movimento de capitalização é uma venda de novas ações da Petrobras, para levantar cerca de US$ 58 bilhões.
2) Para que a Petrobras quer tanto dinheiro?
Esse capital será usado para custear um plano ambicioso de investimentos da estatal, que inclui a exploração de 5 bilhões de barris de petróleo das reservas do pré-sal.
3) O que muda para os acionistas minoritários?
Eles têm de comprar mais ações. Se não fizerem, a participação que têm vai encolher, num fenômeno conhecido como diluição.
4) Por que alguns acionistas estão temerosos?
Alguns pontos do processo ainda têm de ser definidos. A Petrobras terá de pagar para explorar o petróleo do pré-sal, por meio de um mecanismo conhecido como cessão onerosa. Ninguém sabe ainda quanto ela terá de pagar ao governo.
5) A indefinição é ruim?
Ela oferece um risco. A União, que é dona do petróleo do pré-sal, também controla a Petrobras. Ou seja, se ela cobrar caro, todos os acionistas vão pagar a conta. Os próprios técnicos do Ministério da Fazenda reconhecem que a situação da Petrobras é “complicada” devido às características únicas da empresa.
6) Os acionistas minoritários podem perder dinheiro?
No curto prazo, sim. As discussões sobre a capitalização datam de agosto de 2009. Naquele momento, segundo a empresa Economática, a Petrobras valia R$ 332 bilhões. No dia 24 de junho esse valor havia encolhido para R$ 262 bilhões, uma redução de R$ 70 bilhões. Essa diferença saiu do bolso de todos os acionistas. No longo prazo, porém, uma Petrobras com dinheiro em caixa e com acesso ao pré-sal pode transformar-se em um manancial de lucros, desde que o dinheiro seja bem aplicado.
7) Essa queda das ações influencia outras empresas?
Sim. As ações da Petrobras estão entre as mais negociadas do mercado. Isso quer dizer que elas têm muita importância no Índice Bovespa, o principal indicador do mercado acionário brasileiro. Se elas caem, a Bolsa como um todo acompanha essa queda, o que acaba afetando quem investe em outras empresas também.
8 ) A Petrobras pode deixar de ser grau de investimento?
Não. A Petrobras é segura para receber investimentos. No início da semana, os rumores do mercado eram de que a operação poderia afetar sua classificação de risco. No entanto, na quinta-feira 24, Jose Villanueva, analista da Fitch, que avalia a Petrobras, disse que a perda do grau de investimento é “pouco provável”.
9) Quais as consequências de perder o grau de investimento?
Menor acesso a capital, o que poderia também afetar negativamente o preço da ação.
10) É hora de comprar?
Depende do apetite por risco. No dia 24 de junho, as ações preferenciais da Petrobras fecharam a R$ 27,40, uma queda de mais de 15% em três meses. No entanto, antes da crise elas chegaram a superar R$ 55 – ou seja, seus preços estão muito abaixo dos máximos históricos. Ou seja, há espaço para alta.





