Por Delúbio Soares (*)
O Brasil demorou muito a olhar para o cerrado e enxergar nele toda sua riqueza e potencial. Ele se distribui por uma área impressionante, por vários Estados, dominando boa parte de nosso território nacional, mas somente em meados do século passado os brasileiros o trataram com o respeito merecido.
Pedro Ludovico, com a construção de Goiânia e a modernização do Estado de Goiás, chamou a atenção para as potencialidades da área mais central do país, sendo seguido por JK com a interiorização de nosso progresso através da construção de Brasília e a vitoriosa “Marcha para o Oeste”. Desde então o Brasil sabe que a vegetação que já chegou a dominar cerca de dois milhões de quilômetros quadrados, era (e, felizmente, ainda o é) uma de nossas grandes riquezas e um celeiro de fartura.
Hoje, restaram 20% do território original, com cerca de 2% protegidos por reservas ecológicas e parques de preservação ambiental. O antigo e árido território foi invadido por cidades que crescem em acentuada velocidade; é habitado por população que se multiplica de forma impressionante; abriga uma das agriculturas mais rentáveis e exitosas de todo o mundo; é cortado por três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul (São Francisco, Prata e Tocantins/Araguaia); é o segundo maior bioma brasileiro e se expande por oito Estados: Goiás, Tocantins, Minas, Bahia, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí e, também, pelo Distrito Federal. A regularidade pluviométrica, a flora abundante e a rica fauna, se conjugam formando um cenário de biodiversidade raramente encontrável em outras paragens do planeta.
Os diversos ecossistemas que se harmonizam no cerrado brasileiro deram origem a uma riqueza que merece especial atenção dos brasileiros e de toda a humanidade. Mais de dez mil espécies vegetais são encontradas em seu vasto território, muitas das quais, ainda não exploradas, são verdadeiras reservas estratégicas para a ciência, já que podem dar origem a medicamentos.
O que parecia ser apenas um desafio da natureza ao homem, um solo de savana tropical e uma vegetação seca e retorcida, acabou por se firmar como uma das grandes reservas naturais do Brasil e da humanidade.
O subsolo do cerrado guarda reservas de ferro, alumínio e níquel, além de outras tantas que se constituem em patrimônio de nosso país. A exploração racional e sustentável das riquezas do cerrado, bem como a preservação de seu território contra a devastação indiscriminada, são tarefas que se impõe nossos governantes e à sociedade civil.
A Universidade Federal de Goiás (UFG), em alentado estudo, calcula em 800 mil quilômetros quadrados a área devastada do cerrado brasileiro no ano de 2002. E alerta que, se não houver uma política responsável e consistente de preservação ambiental e proteção do segundo maior e mais importante bioma brasileiro depois da Amazônia, esses números preocupantes poderão chegar aos 960 mil quilômetros quadrados em apenas três décadas. Um território comparável ao do Estado de Goiás… O professor Manuel Eduardo Ferreira, da UFG, calcula que 60 mil quilômetros quadrados serão incorporados à área agrícola, com base em imagens de satélite e nos estudos já realizados.
O Brasil precisa resolver uma equação importantíssima: crescer sem depredar, aumentar sua produção agrícola mantendo níveis responsáveis e necessários de preservação territorial, compatibilizando nossa fabulosa agricultura, um dos motores de nosso desenvolvimento, com o indispensável respeito ao meio-ambiente e ao nosso cerrado.
É, sim, possível a convivência e a integração de uma agricultura que cresce e alavanca o progresso do país com o respeito à natureza. Em minhas andanças por Goiás constato que os produtores rurais tem hoje uma visão generosa e responsável da questão ambiental. Sabem os homens da terra que nenhum progresso é válido se o meio-ambiente for agredido. Existe uma conscientização crescente de que duas questões se impõe à humanidade, ocupando espaço nos foros internacionais de estudo, debate e negociação entre os países: a paz mundial e a questão ambiental.
A ONU e organismos internacionais já olham o cerrado com o respeito que ele merece e impõe. O governo do presidente Lula desenvolve políticas inéditas para a área, e hoje os organismos de fomento econômico e social, como o BNDES e o Banco do Brasil, aprovam projetos sustentáveis e comprometidos tanto com a produção agrícola quanto com a preservação do imenso território do cerrado. Isso demonstra a possibilidade de convivência do homem e de sua necessidade de produção com a manutenção de uma das mais importantes riquezas do Brasil e de seu povo.
O cerrado não é a terra de ninguém de décadas atrás. Ele é, apenas e tão somente, fundamental para o crescimento do Brasil e o futuro de nossas gerações.
(*) Delubio Soares é professor




Caro Amigo,
Esta sua abordagem é sem dúvida lúcida e oportuna; poderia ser estendido o debate dentro do enfoque da necessidade de se compatibilizar a preservação do meio ambiente sem se inviabilizar a exploração econômica e social, tanto do cerrado quanto das demais áreas agricultáveis do nosso solo, como forma de agregação e distribuição de riquesa a nossa população; para isso, a meu ver, necessário se faz que haja ampla reforma da legislação que regula a exploração dessas potencialidades, respeitando as situações presente de uso e ocopação do solo. Devemos fazer uma análize crítica, separando-se os discursos, que muitas vezes são eivados de interesses externos, no intuito de tornar menos competitiva nossa cadeia de produção do Agro-Negócio brasileiro, entendendo que ele ainda compete em enormes desvantagens comparativas com paízes que subsidiam essa cadeia de produção. Na minha visão, a nova legislação em discussão no congresso nacional e já aprovada na comissão especial relatada pelo ilustre Deputado Aldo Rebelo, contribui sobremaneira na correção e consolidação de situações fáticas encontradas no campo, trazendo de forma clara, objetiva e transparente a melhor maneira de harmonizar e dar segurança ao homem do campo; mas, o tema não se encerra aí; é necessário tambem, que sejam formuladas políticas públicas que sejam suficientes para dar auto-sustentabilidade ao micro, pequeno, médio e grande produtor rural e para isso há necessidade de se alterar alguns quisitos básicos, tais como; o tamanho economicamente viável do menor módulo de produção sustentável, aliado a que tipo de cultura a ser estimulada( é possível uma família tirar seu sustento no campo com com uma área de 100 ha. na região Amazônica ou em determinadas regiões do Centro-Oeste brasileiro? Lógico que não) além de se prover os meios necessários ao desenvolvimento dessa exploração, não só com financiamento adequados mas também com plíticas de preços mínimos e de seguro contra intempéries do tempo. Nessa visão, acredito que a capacidade de geração de renda de forma bem distribuída seja viável e dará ao País um grande fundamento no fortalecimento econônico e político da cadeia alimentar no mundo, equipando condições desiguais de competição.
O assunto é de grande complexidade e muito vasto e deve ser debatido sob os mais diversos angulos de visão, mas é apaixonante por sua enorme potencialidade.
Terminando esses breves comentários, receba meu abraço fraterno.
Sérgio Augusto de Almeida Braga
Concordo “ipsis literis”, com o comentário feito ao artigo por Sergio Braga,parabens! O setor do agronegocio brasileiro precisa de mais atencao, pela sua grande importancia do contexto economico mundial.