Locomotiva em marcha-à-ré

 

Artur Araújo

Márcio Pochmann, presidente do IPEA, publicou, há poucos dias atrás, um artigo que merece o qualificativo “fundante”. Partiu, como bom cientista que é, dos fatos, dos dados, e semeou uma idéia que estrutura a compreensão do que são Serra e sua candidatura.

O texto, “Para onde vai São Paulo?”, examina informações do IBGE, segmentadas por estado, e chega a uma conclusão inatacável: “Apesar dessas quedas relativas na participação econômica do Estado de São Paulo na produção nacional, percebe-se que houve crescimento do peso paulista em outros setores, não necessariamente estimulantes em termos da construção exitosa do seu futuro. O setor da agropecuária ampliou sua participação de 8,6%, em 1996, para 11,7%, em 2007, e o de intermediação financeira teve ampliação de 49,9% para 51,4% no mesmo período de tempo. Mesmo reconhecendo a importância dos setores agropecuários e financeiros, sabe-se que eles não são suficientes para contribuir decisivamente na construção de uma sociedade superior. [...] observa-se que as escolhas governamentais mais recentes apostam mais no passado do que no futuro. [...] constata-se a sinalização de interrupção na passagem da sociedade industrial para o pós-industrial, com importante retorno ao velho agrarismo. O setor agropecuário gera riqueza empregando cada vez menos mão de obra, enquanto a intermediação financeira opera com crescente tecnologia de informação poupadora de força de trabalho, o que compromete o futuro de inclusão e coesão social paulista.”.

Se ainda faltassem argumentos para convencer os eleitores de que a eleição de Serra seria o retrocesso do Brasil, agora estão definitivamente fornecidos. Autoproclamado “moderno e desenvolvimentista”, José Serra, pela prática de sua gestão e examinado sob a lupa de Pochmann, mostra que rumo segue ao gerir a coisa pública: cria as condições, políticas e ideológicas, para a organização da economia em um modelo que, neoliberal à tona, é puro retorno ao passado. Para os que têm algum gosto pela história paulista, vêm à mente corretores e barões do café, tomando chá no Mappin Store, e casas bancárias descontando letras de câmbio com banqueiros londrinos de cartola.

O controle que Serra sempre exerceu sobre os grandes meios de comunicação em São Paulo – são famosas, entre editores e jornalistas, suas ligações telefônicas exigindo tal ou qual linha de redação – foi o instrumento usado para que nunca aflorasse o resultado de seu governo, que aprofundou a aplicação do programa do PSDB, iniciada já nas gestões Covas. Como seria desastroso até citar consequências do modo tucano de governar, erigiu-se uma barreira de silêncio, o debate ficou interdito e a mediocridade do governo foi oculta por omissão.

Para além do mais óbvio – o estrangulamento financeiro e a paralisia de gestão dos sistemas públicos de saúde, educação, transportes, obras e segurança; a truculência como método de convívio com a sociedade civil, ao estilo do velho PRP, aquele que considerava que “a questão social é um caso de polícia” – ficou invisível a alteração estrutural da produção em São Paulo. Na ânsia de bem servir a Serra, a mídia paulista veio desservindo até seus anunciantes – os empresários industriais, do comércio e dos serviços – e seu próprio “leitorado” principal, as camadas médias das principais cidades, cujos empregos e pequenas empresas não sobreviverão a um São Paulo à la anos 1920.

O pânico que o artigo de Pochmann semeou entre os grão-tucanos mereceu recibo e gerou o improviso de uma das peças de campanha mais patéticas dos últimos tempos. Publicado em uma terça-feira, já no domingo o texto do presidente do IPEA era confrontado por um pretenso estudo da MB Associados, empresa da notória família Mendonça de Barros, que sacou uma bola de cristal e passou a prever um crescimento da massa de renda no estado de São Paulo, no período 2010-2015, na casa de 8,1% ao ano, uma expansão de quase três vezes em relação ao período 2003-2008.

A MB, nesse relatório de encomenda, classifica o crescimento anual da renda paulista, entre 2003 e 2008 (2,9%), como “medíocre” e o compara às taxas do Piauí (7,9%) e Bahia (7% ao ano, no mesmo período). E mais: atribui essa suposta reação futura de São Paulo ao pré-sal, aos desembolsos do BNDES e à realização da Copa e das Olimpíadas no Brasil, ações que, cada brasileiro bem sabe, nunca contaram com qualquer apoio de Serra.

Obrigados, ainda, a reconhecer o papel estruturante que tiveram – no crescimento econômico e na redução das desigualdades regionais – as políticas sociais (Bolsa-Família, em particular) e de recomposição do poder de compra do salário-mínimo (esta sempre considerada, por eles mesmos, como “inflacionária” e “destrutiva para o INSS e para os municípios”), são socorridos, pela reportagem do jornal que publica a peça da MB, com exemplos impactantes: a decisiva expansão de algumas empresas, em particular uma em Pindamonhangaba, que, ao longo desse “novo ciclo expansionista” da indústria paulista, gerarão a estonteante cifra de 124 novos empregos diretos…

Os paulistas sempre tiveram muito orgulho da imagem da “locomotiva do Brasil”. Por vezes, até às raias do chauvinismo, manifesto no complemento “puxando 26 vagões vazios”. Tal formulação nunca levou em conta o quanto o desenvolvimento mais igualitário, das demais regiões brasileiras, era estratégico para o avanço do estado, mas contava com um fundo de verdade, a idéia de protagonismo bandeirante. O PSDB, em ânsia neoliberal “fashion”, negou os papéis planejador, indutor e mesmo investidor do Estado e recusou-se a aplicar medidas anticíclicas na crise e pró-cíclicas nas fases de bonança. Mudou a marcha de São Paulo e colocou a locomotiva no desvio e em marcha-a-ré.

Entre os méritos decisivos dos dois mandatos de Lula está a recondução das idéias de Nação e de redução das desigualdades ao centro do pensamento político e das aspirações da sociedade. Além das ações mirando o aumento da participação da remuneração do trabalho na renda nacional, o período 2003/2010 será reconhecido pelo esforço bem sucedido de dar às demais unidades da federação uma oportunidade de participação mais equilibrada nas riquezas do Brasil. E a trajetória pessoal de Dilma Rousseff, desde sua militância política de juventude, tem no nacionalismo, no desenvolvimento regional, na integração de pessoas e territórios, marcos de constância.

Paulistas que reflitam sobre para onde está indo São Paulo, sob a batuta de Serra e de seus sócios – no PSDB/DEM/PPS, na grande banca, nas “consultorias econômicas” e no latifúndio monocultor – podem vir a ser um diferencial no processo eleitoral em curso. Após pensarem um pouco mais sobre seu estado, de origem ou escolha, terão a oportunidade de alertar os brasileiros de outros lugares que as propagandas da SABESP, onipresentes nos horários nobres em lares que não consomem água paulista, só buscam criar um mito e esconder o atraso no fim do túnel.

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