(*) Delúbio Soares
No futuro distante os historiadores que se debruçarem por sobre os dados biográficos, a longa vida e a rica trajetória de Cora Coralina, se surpreenderão. Como pode uma moça do interior de Goiás nos primórdios da virada do século XIX para o século XX já se aventurar pela literatura e dar os primeiros sinais de uma alma livre e um espírito libertário?
Que Cora foi uma das maiores poetas da língua portuguesa nós todos já sabemos. E, felizmente, na contramão de nossos hábitos de ingratidão e não-reconhecimento tão costumeiros, isso foi reconhecido em vida, com todas as homenagens e honras prestadas. O que falta dizer é que Cora foi uma das mais universais figuras de nosso país em todos os tempos. Foi das personalidades mais cosmopolitas que geramos, apesar de sua despretensão, de sua modéstia e de sua absoluta ausência de vaidade ou presunção. Sua obra é marcada pela grandeza que vem do simples, da constatação do cotidiano. Certamente é o tipo mais difícil de literatura, de poesia, de prosa. É a mesma de Machado de Assis, e de dois amigos pessoais e admiradores declarados de Cora Coralina, Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade.
Minha leitura recorrente, Cora volta a extasiar-me com nova coletânea de seus escritos, fotos, lembranças, cartas. É uma autêntica obra de arte intitulada “Cora Coralina, Coração do Brasil”, do Museu da Língua Portuguesa, de São Paulo, patrocinada pelo governo de Goiás, pela Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira, pelo Museu Casa de Cora Coralina e tendo o Co-Patrocínio da Imprensa Oficial de São Paulo. A idealização e produção, aliás, excelentes, são da FazerArte.
É um dos melhores livros que tive a oportunidade de ler nos últimos tempos. E digo isso como leitor compulsivo, voraz e crítico. Nele nos deparamos com a trajetória de uma mulher simples, uma goiana nascida em 1889 (e chamada Ana Lins dos Guimarães Peixoto) duas semanas antes da queda da monarquia e da proclamação da República. Órfã de pai aos dois meses foi menina estudiosa e produziu seu primeiro conto aos nove anos de idade, antes da chegada do século XX.
Aos quatorze anos, em pleno interior de Goiás, numa sociedade reacionária e machista, escreve para jornais do Rio de Janeiro, faz conferências, movimenta a vida cultural de sua terra. Hoje, mais de um século depois, uma adolescente de quatorze anos, por mais inteligente que seja, com internet banda larga instalada em casa, dificilmente conseguirá publicar um artigo em um jornal diário carioca. Pois, Cora, meus amigos, publicava, mais de um século atrás, mandando os seus manuscritos pelos Correios, em lombo de burro. O segredo? Talento e genialidade! Aos dezesseis anos funda com outras moças o jornal “A Rosa”, com claros ideais feministas, impresso em um papel ordinário e barato, cor de rosa, e que difunde as idéias que jamais haviam chegado até aquele sertão de Goiás. Antes dos quinze anos já é articulista do importante jornal Goyaz – era a sociedade de seu tempo cedendo, bem ou mal, ao seu inegável talento literário e à sua coragem pessoal. Por essa época Ana vira Cora, Cora Coralina, o nome que Goiás, o Brasil e a literatura consagrariam pela eternidade.
Uma vida rica, multifacetada, vivida com simplicidade, com coragem, com amor, com tenacidade, foi se desenvolvendo. Amou e foi amada. Casou-se contra a vontade da família, mudou-se para São Paulo, para o interior de São Paulo, para São Paulo de novo, nascem filhos, escreve em jornais da capital, do interior, reconhecem seu valor, faz fama, angaria admiradores.
Em 1922 o Brasil é sacudido pela Semana de Arte Moderna. Um grupo de artistas plásticos, poetas, escritores, se reúne e dá um novo rumo ao movimento cultural em nosso país. É um novo marco na vida de nosso país fincado por Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Clóvis Graciano, Monteiro Lobato, Flávio de Carvalho, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Heitor Villa-Lobos, Guiomar Novaes, Menotti Del Picchia, Oswald de Andrade, Ronald de Carvalho, Di Cavalcanti, Guilherme de Almeida. Enfim, a nata da intelectualidade se reuniu para dizer “NÃO” ao velho, ao arcaico, ao importado, ao ruim, e estabelecer um novo padrão estético e cultural para o Brasil. Monteiro Lobato transmite à Cora Coralina o convite em nome de todos eles para que ela participe do seleto grupo que mudaria os rumos da cultura naquele histórico e calorento fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo.
O marido de Cora, o advogado Cantídio Brêtas, sabe-se lá por que motivos, opõe-se à sua participação e Cora fica em Jaboticabal, no norte de São Paulo, onde residiam. Mas apenas esse convite já demonstra a importância e o prestígio que nossa querida conterrânea já adquirira em muito poucos anos com o que existia de melhor na fina flor da intelectualidade nacional. E serve para mostrar aos que pensam que Cora Coralina foi a simpática velhinha doceira que fazia versos numa cidade bonita do interior goiano que ela, aos olhos de Monteiro Lobato, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti era, apenas, uma deles.
Lutou na revolução constitucionalista de 1932 ao lado das tropas de São Paulo, alistando-se como enfermeira e costurando uniformes. Foi intelectual do ano em 1983, recebendo o Prêmio Juca Pato, da União Brasileira dos Escritores e da Folha de S. Paulo. A primeira mulher a receber a honraria e a única goiana. Foi doceira de mão cheia, famosa e requisitada. Foi íntima de Drummond e de Jorge Amado. Foi mãe e foi avó. Foi goiana apaixonada e foi cidadã do mundo sem sair da cidade onde nasceu.
Senti vontade de homenagear Cora Coralina ao me deparar com esse livro fabuloso. E me emociono com o que vou encontrando em suas páginas. Vou reconfirmando essa alegria verdadeira, esse sentimento profundo, essa sensação que vem das raízes da terra goiana, dos pés rachados, do chão da infância, da memória que jamais se apagará. Quantas e quantas outras Coras Coralinas existirão perdidas em existências humildes pela vastidão de nosso país? Quanto talento e quanta genialidade não estarão sendo desperdiçados por falta de ousadia, de oportunidade, de reconhecimento? Quantos de igual envergadura não serão marcados pela sorte e a notoriedade, infelizmente?
Sinto imenso orgulho de termos tido Cora Coralina.
(*) Delúbio Soares é professor

Delúbio,
Registre incremento no fã clube de Cora Coralina.
Leio e gosto de todos os seus textos, mas, este foi especial.
Parabéns.
Muito bom o artigo desta semana.
Muito merecido, pois Cora merece.
Déo
Ainda não tenho twiter mas o site e esta página estão apresentando resultados muito bons em termos de visão tanto do Vosso estado edas cidades goianas quanto do Brasil.
Acho que voce poderia discutir um pouco mais aspectos ligados ao desenvolvimento economico do pais e, no meu caso especifico de interesse, das parcerias do Brasil com paises africanos e latinos americanos.
Vamos prá frente que a caminhada é longa.
Grande Abraço
ÓTIMO O ARTIGO.PROVOCA INTERESSE NA LEITURA DA OBRA DE CORA CORALINA.
AGRADEÇO.
HENRIQUE
Querido Delubio:
Parabens pelo artigo.
Quando estiver em SP venha fazer uma visita.
Um forte abraco, Luiz.
Prezado Delúbio, é com muita honra e satisfação que te mando este e-mail para parabenizá-lo por alguns artigos que tenho lido escritos por você. Quero destacar aqui a admiração que tenho por você e seu modo simples de se dirigir a todos, sem distinção; sua preocupação com as pessoas e as coisas da terra; seu profissionalismo e fidelidade aos companheiros. Moro em Buriti há 22 anos e como tantos aqui, tenho orgulho de ter você como gente desta terra. Que Jesus e Maria continuem guiando seus passos, e que vc seja sempre esta pessoa iluminada e tão admirada por tantos, com esta sabedoria imensa e esta pureza de coração. Parabéns! Abraços com carinho!!
Delúbio, mais uma vez venho parabenizá-lo pela beleza do texto.
Grande abraço.
Nelson
Caro companheiro,
Foi uma agradavel surpresa me ver incluida em seu mail.
Confesso que apesar da grata surpresa, até então pouco sabia de vc. Sabia de companheiro, mas li, atravez de CORA, a sensibilidade de um ser: Você.
Gostei, vou ser assidua.
Grande abraço e força para manter acessa essa LUZ. Agradeceremos nós, se assim.
Nanda Tardin
Hasta la vitória, JUNTOS SOMOS FORTES. Somos a base da piramide, 180 milhoes de brasileiro, só falta fazermos uso dessa força e assim evitar que o topo nos manipule.
Bjs
Nanda Tardin
Delúbio, a Ana-Cora,
que foi mais paulista que goiana, pois viveu 45 anos em São Paulo, teve pai desembargador e marido advogado. Viveu a vida que a maioria das pessoas daquele século viveram, uns com mais leitura, outros com menos leitura(sempre dependeu do interesse da cada um), mas só muito mais tarde, depois dos 50 anos é que se tornou poeta dos seus tempos de infância. Apenas poeta. Doceira era o seu ofício. Uma velha senhora levantando as cortinas do seu tempo jovem, revivendo idades. Minha avó, que nasceu em 1902, também como Cora era Ana, e também escrevia e falava “versos”, mas lá onde ela morava era muuuiiiiito mais muuuiiito mais longe do onde a Cora morava!
Abraços,
LÊDA
Lindo artigo, Delúbio, gente como você faz a diferença para enaltecer e colocar em evidencias os nossos conterrâneos… bem aquilo de puxar sardinh pro nosso lado… mas temos mesmo que fazer isso… se não quem fará por nós.
abraços.
Caro Delúbio, parabens pelo belo artigo publicado.
Forte abraça
Chagas
Caro Delúbio,
Agradeço-te por mais este presente. Feminista que sou, fico feliz de ler este lindo artigo sobre Cora Coralina. Continuo acreditando que vc é um homem muito capaz e sensivel para perceber a grandeza desta e de tantas outras coras do nosso Brasil.
Saudações feministas meu companheiro sempre!!!
Beleza, meu caro!
Também adoro, desde há muito tempo, a poesia de Coralina. Bela dica, vou procurar o livro.
Abs,
JF Meira
CARO DELÚBIO,
PARABÉNS PELO BELO E OPORTUNO TEXTO SOBRE NOSSA CORA CORALINA!
PUDE RELEMBRAR HORAS DE CONVERSAS QUE TIVE COM ESTA AUGUSTA MULHER!
SOU GOIANO DE ANÁPOLIS, MAS VILABOENSE DE CORAÇÃO E MOREI NA RUA DA ABADIA POR VÁRIOS ANOS E MAIS TARDE NA RUA FÉLIX DE BULHÕES Nº 15, POR BELOS ANOS E MEUS PAIS CONTINUAM MORANDO EM VILA BOA, NOSSA GOIÁS VELHA.
SOU–LHE GRATO PELA LEMBRANÇA BEM ESCRITA E RETRATADA POR PODEROSOS PERSONAGENS DA NOSSA HISTÓRIA E ADMIRADORES COMO NÓS DE ANINHA DA PONTE DA LAPA OU ANA LINS DOS GUIMARÃES BRÊTAS (COM SOBRENOME DE CASADA). TIVE A GRATA SATISFAÇÃO DE PERTENCER A UMA GERAÇÃO QUE TINHA LIVRE ACESSO À CASA DA PONTE E ENTRAR PARA A COZINHA DA DOCEIRA CORA E DEGUSTAR VÁRIOS DOCES E ESCUTAR NÃO SOMENTE AS POESIAS, MAS PRINCIPALMENTE OS DELICIOSOS “CAUSOS”
DA GRANDE AMIGA.
AINDA HOJE QUANDO VOU A GOIÁS, NUNDA DEIXO DE IR À CASA DA PONTE, FALAR COM MARLENINHA (DIRETORA DO MUSEU DE CORA CORALINA) E TAMBÉM VISITAR ALGUNS PERSONAGENS AINDA VIVOS
DA NOSSA CIDADE DE GOIÁS, COMO A AMIGA PINTORA GOIANDIRA DO COUTO.
PARABENS E CONTINUE RESGATANDO NOSSAS RAÍZES E PERSONAGENS DA NOSSA RICA HISTÓRIA.
GRATO,
EMILIO PÓVOA
E vc foi e é exatamente um ser que transformou a história em história, pelo menos pra mim.
Citar Cora é um movimento de respeito a quem consegue romper a história das épocas.
Não se iluda.
Fostes um cordeiro na mão de lobos.
Eu não me esquecerei q enquanto meninos ideológicos que fomos e ainda o somos, andastes na boa intenção.
Em seus chinelões de pneu, já bradava com a coragem de dizer!: basta aos afrontas que a educação que tudo nos cobrava entao q nos doe.
E no redominho medonho da matéria nos perdemos…
mas sua hora grafada na infinutide de mtos outros seres que como o Toninho, o bom violinista
que com a mão esquerda rasgava o violão. Você ja o fazia com sua voz ideológica mudanças pra nos seres que fazem a hora acontecer
Não es Cora…mas és Delúbio.
O tempo é de colher e que sejamos sempre! o momento transcendente chamado coragem.
Ionilda Brasil SéculoXXI
Viva Cora!
Bom artigo!
Abs
Nascer e morar em uma cidade do interior de Goiás, há algum tempo atrás, realmente foi um sonho.Concordo com o ilustre educador ao referenciar a nossa poetisa goiana “Aninha da ponte de Goiás”, a sábia doceira que colocou Goiás nos livros da literatura brasileira.
Caro Delubio,
Muito obrigado pelo artigo. Realmente, muito bom! Espero continuar recebendo os seus artigos e me comunicando com o amigo.
Um grande e fraternal abraco,
Fausto
Delubio quero parabenlizar pelas belas materia escritas por vc a sua paixao pelo o estado de goias .e pelo nosso querido brasil
Olá Delubio
Parabéns pelo artigo a Cora Coralina com certeza sempre nos inspira.
Cidinha
CARO DELÚBIO,
PARABÉNS PELO BELO E OPORTUNO TEXTO SOBRE NOSSA CORA CORALINA!
PUDE RELEMBRAR HORAS DE CONVERSAS QUE TIVE COM ESTA AUGUSTA
MULHER!
SOU GOIANO DE ANÁPOLIS, MAS VILABOENSE DE CORAÇÃO E MOREI NA RUA
DA ABADIA POR VÁRIOS ANOS E MAIS TARDE NA RUA FÉLIX DE BULHÕES Nº 15,
POR BELOS ANOS E MEUS PAIS CONTINUAM MORANDO EM VILA BOA, NOSSA
GOIÁS VELHA.
SOU–LHE GRATO PELA LEMBRANÇA BEM ESCRITA E RETRATADA POR PODEROSOS
PERSONAGENS DA NOSSA HISTÓRIA E ADMIRADORES COMO NÓS DE ANINHA DA PONTE DA
LAPA OU ANA LINS DOS GUIMARÃES BRÊTAS (COM SOBRENOME DE CASADA).
TIVE A GRATA SATISFAÇÃO DE PERTENCER A UMA GERAÇÃO QUE TINHA LIVRE ACESSO
À CASA DA PONTE E ENTRAR PARA A COZINHA DA DOCEIRA CORA E DEGUSTAR VÁRIOS
DOCES E ESCUTAR NÃO SOMENTE AS POESIAS, MAS PRINCIPALMENTE OS DELICIOSOS “CAUSOS”
DA GRANDE AMIGA.
AINDA HOJE QUANDO VOU A GOIÁS, NUNDA DEIXO DE IR À CASA DA PONTE, FALAR COM MARLENINHA
(DIRETORA DO MUSEU DE CORA CORALINA) E TAMBÉM VISITAR ALGUNS PERSONAGENS AINDA VIVOS
DA NOSSA CIDADE DE GOIÁS, COMO A AMIGA PINTORA GOIANDIRA DO COUTO.
PARABENS E CONTINUE RESGATANDO NOSSAS RAÍZES E PERSONAGENS DA NOSSA RICA HISTÓRIA.
GRATO,
EMILIO PÓVOA