Artigo Publicado no Diário da Manhã – GO – 28 de janeiro de 2010
(*) Delúbio Soares
A questão ambiental parece estar na moda. E eu fico feliz com isso: antes tarde do que nunca. E nós já estamos trabalhando para que a mais importante questão do século XXI não seja tomada por “modismo”, mas seja encarada como a grande, definitiva e última oportunidade que temos de salvar o planeta Terra, consertar os brutais erros cometidos ao longo das últimas décadas do século passado e, mais que tudo isso, legar um mundo melhor para as gerações do futuro. É a chance de não deixar a Terra morrer, em última, cruel e verdadeira análise.
O que hoje precisa ser protegido e merece a atenção de todos – os rios piscosos, as lagoas plácidas, as matas verdejantes, os animais silvestres, a terra fértil, a fauna e a flora nativas – foi o cenário fabuloso da minha infância humilde e feliz no interior de Goiás. Lá pelos idos dos anos 60, sem nem saber bem o que era isso, sem nunca ter ouvido falar em consciência ecológica, sem ter conhecimento do comportamento monstruoso da humanidade contra sua própria vivenda, eu já era um ambientalista. E lamento profundamente pelos que, tendo hoje a idade que eu tinha, não conhecem um rio despoluído, um córrego de águas cristalinas, matas virgens prenhes de pássaros cantando a chegada do dia ou em revoada com o anoitecer lilás, melancólico e belíssimo do centro-oeste brasileiro. Os que hoje têm a minha idade foram afortunados pela oportunidade de conhecerem um mundo que ainda respirava. E agora?
Pagamos um preço altíssimo pelo progresso. Mas poderia ter sido diferente? Poderia, mas não foi e é tarde para reclamar. As grandes potências poluíram e ainda poluem esse mundo de meu Deus de forma criminosa e diuturna. A China, grande país e grande povo, que visitei e pelos quais tenho imenso afeto e respeito, já procura fontes alternativas de energia, mas tira do carvão vegetal, do carvão mineral e do óleo diesel, a quase totalidade de sua força energética. É como se fosse uma chaminé de proporções imensuráveis tornando quase irrespirável boa parte do ar que o oriente “respira”. Nos invernos do hemisfério norte os norte-americanos e os europeus, tão civilizados, não deixam por menos e buscam aquecer-se com energia antiquada, poluente, vinda da derrubada de florestas inteiras e colaborando a cada estação com a barafunda ambiental em que nos metemos desde a revolução industrial.
O gênero humano, com todas as suas mazelas, tem momentos iluminados. Em 1992, no Rio de Janeiro, mais de uma centena de países se reuniram convidados pelo Brasil e discutiram, de forma pioneira, competente e honesta, a questão do meio-ambiente. Houve um inegável avanço: deu-se início ao debate e se chamou a atenção do mundo para a marcha batida rumo ao caos climático, ao degelo progressivo dos pólos, ao estupro da camada de ozônio, às intromissões criminosas do homem nos ecossistemas e nas respostas dramáticas ou vinganças brutais da Mãe Natureza de quando em quando. Acendeu-se a luz amarela.
Depois foi em Kyoto, em fins de 1997… A alma sem luz de George W. Bush, seu pensamento medieval e seu descompromisso com o futuro da humanidade, além – é claro – de sua vinculação aos piores interesses do mais atrasado capitalismo texano, petroleiro e armamentista, impediram que a potência que mais polui, que mais estragos nos causa ao planeta, vetasse os avanços necessários e boicotasse o “Protocolo de Kyoto”, uma continuidade da “Rio 92”. Perdemos muitos anos, muitas vidas. Essencialmente, perdemos muito futuro. A luz vermelha é que se acendeu, infelizmente.
O mundo se reencontrou na Dinamarca, na histórica reunião de Copenhagen. O Brasil deu um show, sem modéstia e sem arrogância. Diplomatas preparadíssimos, debatedores afiados, ministros batendo um bolão e o presidente Lula fazendo o possível e o impossível para que de lá saísse algo consistente e exeqüível. Não conseguimos tudo. Em verdade, conseguimos bem menos do que o planeta e o futuro nos exigem. Mas a imprensa internacional, os ambientalistas de todo o mundo, os participantes e os organizadores do encontro foram unânimes em dizer que não foram os Estados Unidos, França ou Alemanha, nem Barack Obama, Sarkozy ou Angela Merkel que deram o tom e tentaram extrair o melhor: foi o Brasil, foi o presidente Lula devidamente assessorado pelos seus ministros, como Dilma Roussef e Carlos Minc Carlos Minc, um brasileiro que sabe das coisas naquela área tão importante. O presidente Lula mostrou ao mundo que nós, brasileiros, sabemos que não se pode errar em política, em economia, em política externa. Mas para tudo isso há conserto, há retorno, há remédio. Para o meio-ambiente, não! Qualquer dano ao meio-ambiente se reveste das características de tenebroso e imperdoável crime de lesa-futuro.
Domingo estive às margens do Rio Piracanjuba, na minha querida cidade de Morrinhos. É minha região, é vizinha à Buriti Alegre, é chão que piso e em cada esquina encontro um amigo de muitos anos. Fomos lançar mais de 350 mil peixes no leito daquele rio tão importante para Goiás e tão maltratado, em pontos estratégicos dos Municípios que são banhados por ele, como Caldas Novas, Marzagão e Água Limpa. É uma região importantíssima, onde se encontra, além do Piracanjuba, o Rio Meia Ponte e os ribeirões Formiga, Monjolinho, da Divisa, Mimoso e alguns outros de menor porte, mas igualmente merecedores de nossa atenção e cuidados. Repleta de angicos, amarelinhos, sibipirunas, cedros, jacarandás, ipês, aroeiras… E dezenas de espécies de árvores frutíferas, num exagero de beleza e numa benção em biodiversidade. Não é a toa que Morrinhos é conhecida como a “Cidade dos Pomares”.
Em inícios de 2008 participei da Primeira Expedição Rio Paranaíba, onde centenas de pessoas, em dezenas de barcos, lanchas, canoas e até caiaques, com secretários de Estados, prefeitos, ambientalistas e cidadãos goianos, navegaram pelo belo e poderoso rio visitando as cidades goianas, mineiras, sul-mato-grossenses e paulistas com uma mensagem ambientalista pioneira.
Às margens de um rio que não quer morrer e nem nós iremos deixar, estavam lado a lado os prefeitos de Morrinhos, Piracanjuba, Rio Quente e Aurilândia, os vice-prefeitos de Buriti Alegre e Goiatuba, além do deputado Evandro Magal, líder do governador Alcides Rodrigues na Assembléia Legislativa, dos secretários Ernesto Roller (Segurança Pública), Sérgio Caiado (Infraestrutura) e Marcus Vinicius (Comunicação) e do comandante da PM, Antônio Elias.
Não estávamos pedindo votos, nem fazendo política partidária. Ninguém defendia interesse pessoal ou político. Olhei para os lados e vi centenas de pessoas, companheiros de diversos partidos, todos lá, preocupados com o meio-ambiente, a sustentabilidade, a revitalização dos rios, o futuro de suas cidades, de Goiás, do Brasil e das gerações vindouras. Senti a mudança dos tempos e da consciência da humanidade em pleno interior goiano ao ver o ex-governador Helenês Cândido, na lúcida plenitude de seus 75 anos ao lado de centenas de crianças. Era difícil saber quem estava mais entusiasmado, mais decidido, mais devotado à causa. Lá, às margens do Piracanjuba, vi o passado e o presente lutando por um futuro melhor. Venceremos.
(*) Delúbio Soares é professor





Muito bom,
estou te descobrindo mais e mais
Bjafro companheiro
Prezado Delubio
Recebo regularmente os seus e-mail’s e li a reportagem “O futuro ás margens de um rio”.
Pertenço a uma OSCIP a ORGADEM que está preocupada tanto com o futuro do meio ambiente quanto do desenvolvimento social brasileiro. Anexo, para sua analise, a apresentação de um Projeto sobre reflorestamento voluntário no Brasil. Caso ache interessante estou a sua disposição para mais esclarecimentos.
Atenciosamente,
Cesare Fea
ORGADEM – Organização de Apoio ao
Desenvolvimento dos Municípios
Tio, adorei o artigo!!!
Bjos,
Mariana
Delúbio Soares
parabéns pelo artigo que retrata a nossa realidade, mostra aspectos desconhecidos de sua personalidade e dedicação às causas da natureza.
Somos, ainda, desta geração privilegiada. Tivemos a oportunidade de usufruir de belas matas e mananciais goianos, que há algum tempo existiam.
Costumo, também, publicar artigos no jornal DM. Abordo temas ligados à cultura e ao folclore goianos.
Anexo o texto mais recente que deverá ser publicado neste domingo.
PS. Obrigada pelo envio do texto. Continue assim…
Abraços.
Namastê.
Elizabeth Calderia Brito