Serra e Piñera: tudo a ver ou só o que convém aos tucanos?
Por Luis Favre
“Vizinhança. Tucanos de diferentes plumagens não esconderam a empolgação com a vitória do empresário Sebastián Piñera, da coalizão de centro-direita no Chile, contra o candidato apoiado pela socialista Michele Bachelet.
Ângulos. O discurso que correu ontem entre tucanos é que, assim como Bachelet, Lula encerrará o governo com alto índice de popularidade. A chilena, dizem, não conseguiu transferir votos porque seu candidato, o senador Eduardo Frei, tinha perfil distinto do dela. E a tese é que isso se aplicaria a Dilma Rousseff.
Bula. Já petistas usaram a divergência entre apoiadores de Bachelet, que terminou com a candidatura “independente” de Marco Enríquez-Ominami (terceiro colocado) para alfinetar Ciro Gomes (PSB): “É um exemplo que não deve ser seguido no Brasil. Ciro não deve ser candidato, embora Bachelet apoiar Frei equivale a Lula apoiar FHC”, diz André Vargas (PR).”
Painel da FOLHA SP
Contrariamente às recentes eleições no Uruguai, onde o presidente “bem avaliado” ajudou a eleger o candidato da sua Frente Ampla, às eleições no Chile motivaram inúmeros paralelos com o pleito brasileiro de 2010. Paralelos com Chile e não com Uruguai são evidentemente politicamente interesseiros.
Os dois exemplos vizinhos, porém, deixariam a mesma lição para o que é o foco desse debate: Presidente bem avaliado pode fazer seu sucessor (Uruguai), mas não garante vitória do candidato do seu próprio campo (Chile). Profundo pensamento analítico!
E daí?
A verdadeira questão é outra. Para ganhar no Chile a direita teve que esconder seu programa de direita, calar seus ataques à presidenta “bem avaliada” e se travestir em opção política semelhante, contra um candidato -ex-presidente desgastado- de partido distinto de Bachelet. Uma verdadeira negação da democracia que sonega aos eleitores a realidade da escolha, provocando desilusão no sistema democrático e debilitando suas instituições.
Pois bem, esse é o caminho que José Serra e seus apoiadores pretendem percorrer para tentar ganhar às eleições: ludibriar os eleitores, procurando que eles esqueçam a feroz oposição feita a Lula, ao seu governo, a seus programas e a suas propostas.
Mas para ter êxito na operação de enganar a “patuléia”, não basta articulistas influentes, marqueteiros criativos e dinheiro aos montes. O pré-requisito é que seja plausível.
É o ponto de partida necessário…
Por isso a insistência de alguns no passado de esquerda de Serra, na sua divergência com Malan de FHC (os mesmos que atribuem o êxito de Lula ao seu suposto afastamento da esquerda e ter continuado a política de Malan). Eis porque Serra nada diz sobre os rumos do país, sobre os programas sociais, sobre o PAC etc.
… porem, insuficiente.
O candidato do PSDB não é uma novidade e sua trajetória conhecida é a de ministro de FHC durante 8 anos e seu candidato contra Lula em 2002. Claramente identificado com seu partido e o eixo DEM-PSDB, virulento opositor ao governo Lula e marcado pelas privatizações, a sumição ao FMI, o endividamento do Brasil, o aumento da carga tributária e o desemprego. Tudo muito recente para ser facilmente esquecido pela mágica do espaço eleitoral gratuito, mais ainda que seu adversária disporá dele mais amplamente.
PS. Para saber se Lula transfere sua popularidade para Dilma basta observar às pesquisas. Às mesmas que indicam o favoritismo hoje de José Serra, mostram que Dilma passou de 3% para 20%. Alguém dúvida que seu crescimento guarde relação com a boa avaliação que a população faz do Lula e do seu governo e do fato que Dilma é… a candidata do Lula e do PT
CHILE X BRASIL
Por Luis Favre
A vitória do candidato da direita no Chile vai seguramente alimentar um debate na mídia brasileira sobre a capacidade de transferência de votos, por parte de presidentes bem avaliados. Ignorando a experiência recente do Uruguai, por exemplo, onde o presidente bem avaliado da Frente Amplia ajudou à vitória do ex-guerrilheiro tupamaro, a mídia martelará sobre o fracasso desta transferência de popularidade no caso chileno. Uma forma de exorcizar o pânico que à submerge quando evoca está possibilidade no Brasil e que a popularidade de Lula sirva de alavanca para a vitória da Dilma.
Em certa medida esse debate vem em complemento de outro, também apoiado na experiência das eleições chilenas, sobre o eixo eleitoral do candidato da oposição. Piñera, no Chile, fez uma campanha de centro e sem confronto com a presidenta Bachelet. Uma espécie de “pós-Bachelet”, sem ataques à Presidenta, detentora de uma popularidade de 81% segundo as pesquisas.
Antes mesmo do desfecho do pleito chileno, o candidato do PSDB, José Serra, já incursionou no caminho trilhado pelo seu homólogo opositor chileno, declarando que sua campanha à presidente será “falando do futuro” e que a oposição a Lula ficará exclusivamente nas mãos do PSDB, se liberando do rotulo de opositor para -segundo ele- evitar um debate sobre o balanço do governo petista.
A idéia subjacente é que a escolha fuja da disputa polarizada entre projetos e candidatos claramente identificados com a situação e a oposição, em favor de um debate sobre “biografias” e indivíduos mais aptos a dar continuidade à obra -aprovada pela população- do presidente Lula.
Convém observar que o candidato Piñera, no Chile, teve êxito precisamente procedendo assim, mas o conteúdo da sua vitória não deixa dúvidas, destacadas nos jornais do mundo inteiro e do Brasil: é a direita que ganhou as eleições no Chile.
O procedimento de José Serra, semelhante ao posicionamento de Piñera, constitui evidentemente uma forma de estelionato eleitoral e uma negação do direito democrático dos cidadãos a uma escolha clara dos rumos para o país.
No seu editorial de hoje, a Folha de SP se insurge contra este procedimento e proclama corretamente: “Sociedade perde quando candidatos, por mera conveniência eleitoral, silenciam sobre temas de interesse nacional.” (“Esconde-esconde”; editorial Folha SP 18/1/2010). O centro da inquietação abordada pelo jornal fica clara e mais que explicitada, a seguir:
“‘IREMOS MEXER na taxa de juros, no câmbio e nas metas de inflação. Essas variáveis continuarão a reger nossa economia, mas terão pesos diferentes. Nós não estamos de acordo com a taxa de juros que está aí, com o câmbio que está aí. Estamos criando empregos no exterior. Os últimos resultados da balança comercial são negativos. (…) Será necessário fazer um rigoroso ajuste das contas públicas. Hoje o governo gasta muito -e mal.’
São palavras do presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), em recente entrevista à revista “Veja”. É implausível que as críticas à condução da economia não tenham sido discutidas antes com o provável candidato tucano à sucessão presidencial, José Serra. Até porque o governador é um crítico assíduo dessa política econômica.
A entrevista, porém, deflagrou um mal-estar no tucanato, sobretudo naquele núcleo mais próximo de Serra. Sérgio Guerra teria, na avaliação interna, errado na dosagem da crítica, abrindo espaço para que a candidatura tucana seja vista pelos agentes econômicos como um risco à estabilidade. Numa inversão anedótica dos papéis desempenhados na campanha de 2002, Serra, e não mais Lula, seria agora o mensageiro da desordem.
Ora, se existe algum problema de fundo nesse episódio, ele não deriva das posições externadas pelo presidente do PSDB, mas da falta de clareza e da pouca disposição do virtual candidato quando se trata de submeter suas ideias a escrutínio público.” (“Esconde-esconde”; editorial Folha SP 18/1/2010).
Evidentemente o jornal não convencerá o candidato tucano a mudar sua estratégia, e a experiência chilena confortará a ilusão que o procedimento produzirá aqui o mesmo resultado que no país transandino.
Falo em ilusão, não por considerar que esta possibilidade esteja fadada a fracassar inexoravelmente no Brasil em 2010, mas porque a sua implementação no Chile foi possível graças a alguns fatores, que no Brasil não são semelhantes. A começar por Eduardo Frei, empresário e ex-presidente medíocre -candidato escolhido lá pela Concertação-, um representante da “direita” da coligação situacionista de centro-esquerda, o que facilitou, em muito, a “semelhança” com o candidato da direita. O Globo as vésperas do escrutino tinha como manchete, com razão, “Chile: eleição acirrada, candidatos parecidos”.
Mesmo que os jornais tenham se esforçado, em consonância com a estratégia serrista, em apresentar Dilma e Serra como semelhantes, é difícil desvincular a imagem do candidato tucano do governo FHC, do qual -além de ministro- foi candidato contra Lula. Difícil de afastar sua imagem da oposição virulenta exercida pelo PSDB ao Lula e difícil, em fim, de evitar um confronto entre projetos que se sucederam no poder federal e que acentuaram sua polarização e confronto durante todos estes anos recentes. Serra não é uma figura nova, foi e é governo e será obrigado a assumir o ônus e o bônus disto. Até porque o PT não deixará de fora do debate eleitoral a questão do crescimento econômico e do papel do Estado, da desoneração tributária e da queda da desigualdade, do peso dos programas sociais e do ônus do passado de endividamento, estagnação, privatizações e desemprego.
Ilusão também sobre a questão da transferência da popularidade de Lula em votos em favor de sua candidata. As comparações ignoram, também neste quesito, o fato de Dilma ser do PT; além de candidata da aliança com o PMDB,PCdoB, PDT e possivelmente também PSB, PP e PTB.
A cantilena de “Lula tudo bem, mas o PT não” que tão bem serve e serviu o PSDB no Estado de São Paulo, onde a tradição e configuração política do eleitorado quase sempre favoreceu o conservadorismo; já se mostrou inadequada quando projetada nacionalmente pelo Alckmin, na campanha à presidente em 2006. Erro alimentado pelos jornais paulistas que confundem opinião publicada com opinião pública, multiplicada pela idéia que São Paulo é o Brasil.
De sorte que, paradoxalmente, o perfil dos candidatos escolhidos aqui -diferente do Chile- esta longe de facilitar a manobra estelionatária do candidato tucano. A cara de Serra, diferente do Aécio por exemplo, é claramente do adversário e opositor a Lula e representante do passado de FHC. O candidato da direita, com o qual ela pretende voltar a governar o país.
O perfil da Dilma é o da continuidade e do aprofundamento do compromisso social de Lula e do PT.
A escolha tem tudo para ser plebiscitária e dificilmente a polarização poderá ser escamoteada do debate e dos eleitores. Mas os tucanos tudo farão para evitar que seja assim durante o processo eleitoral.
Camuflar sua natureza, enganado os eleitores, para tentar obter a vitória eleitoral é o que caracteriza o estelionato eleitoral pretendido pelos tucanos.
É tripudiar da democracia e zombar dos eleitores. É tudo um programa, desprovido de qualquer principio!
Para ocultar o vácuo da oposição e sua falta de projeto para o país.




O Chile é aqui
Semelhante ao mito do “renascimento conservador”, outro delírio provocado pelas eleições chilenas é o de que a imensa popularidade de Lula também poderia ser insuficiente para alavancar Dilma Rousseff. Poderia, claro, mas quem disse que não? Ninguém precisa da vitória de Piñera para reafirmar essa possibilidade.
Há uma curiosa precaução na escolha de exemplos exteriores. Michelle Bachelet não serve como símbolo feminino de sucesso e competência, por exemplo. E a derrota de Eduardo Frei não revela uma insatisfação com políticos tradicionais identificados com o centrismo, tendência que talvez prejudicasse o PSDB de José Serra e FHC.
Muitas dessas bobagens continuarão a ser testadas pela mídia, até o início da campanha eleitoral. Cada qual escolherá o alucinógeno mais conveniente para suportar o fel da realidade indesejável.