Brasil, de grão em grão

Brasil, de grão em grão


Artigo publicado no Diário da Manhã – GO -  21 de janeiro de 2010

(*) Delúbio Soares

Nos anos mais difíceis da ditadura militar, quando ouvíamos Dom e Ravel cantando louvores a um país que gemia nas masmorras da tortura, quando éramos bombardeados por uma propaganda infame como a do “Brasil: ame-o ou deixe-o”, quando o general Garrastazu Médici abria os portões do Palácio da Alvorada para fazer embaixadinhas em comemoração ao nosso tri-campeonato de futebol, recordo-me de ter ouvido muitas vezes o bordão de que na América do Sul “um gigante está despertando”. Era o Brasil das grandes obras, da ponte Rio-Niterói, da usina nuclear de Angra dos Reis, das rodovias Transamazônica e Perimetral Norte. Existia um ufanismo despropositado no plano econômico, uma cortina de fumaça escondendo dura realidade política enquanto o povo não ia nada bem.

Passados quase quarenta anos, vivendo em plena democracia, com um prestígio internacional nunca dantes conquistado, o Brasil busca no fundo da memória a imagem do gigante adormecido e constata que ela, nos dias de hoje, soaria um pouco exagerada ou piegas, mas pode-se dizer que o impávido colosso não deixa de crescer, não conhece limites em sua expansão, não teme o futuro e nem a concorrência, tem assombrado o mundo com sua capacidade de realização, sua competência e seu otimismo.

Nossa agroindústria é o motor de nosso desenvolvimento. Vem das raízes do Brasil mais profundo, do Brasil da botina e do trator, da semeadura e da colheita, da ordenha e do abate. Faz tempo que o homem do campo, seja o pequeno sitiante ou o grande empresário rural, tornou-se um dos pilares da construção do Brasil vencedor, do Brasil que supera crises, só avança, e nem troca o trabalho pela lamúria.

Em 2010, com a política agrícola desenvolvida pelo governo do presidente Lula, nossas exportações crescerão mais ainda, numa impressionante retomada do crescimento econômico calcada tanto na responsabilidade fiscal e no sentido desenvolvimentista de um governo sério quanto na impressionante capacidade de superação e de trabalho de nosso setor agrícola.

Se em 2009 colhemos quase 58 milhões de toneladas de soja, em 2010 as projeções mais conservadoras indicam que deveremos chegar aos 65 milhões, safra recorde em todos os tempos. Não é segredo para ninguém que nos mercados internacionais a nossa soja tem prestígio e aceitação, tendo se tornado um de nossos itens mais importantes na pauta de exportações. Goiás, Bahia, Piauí, Maranhão, Tocantins e Mato Grosso estão recebendo investimentos massivos quer de pequenos e médios produtores rurais quando de grandes grupos de investidores interessados em participarem do bom momento da agricultura nacional, promovendo a profissionalização e a formalização do agronegócio. São grupos com modernos modelos de gestão, com culturas administrativas baseadas na boa governança corporativa, no foco e nos bons resultados, trazendo modernidade e novos ares para atividades seculares e até outro dia relegadas à improvisação e ao atraso.

Nem o real valorizado, moeda forte e com sólidas bases, trouxe maiores problemas para os exportadores ou tirou a notável competitividade de nossos produtos no mercado internacional. O empresário rural usa botina, mas acessa a internet. O campo se modernizou e tornou-se um player no intrincado jogo das bolsas de cereais, do mercado da carne, das negociações que decidem o fluxo do abastecimento e da venda de nossa produção. Respondemos com criatividade às exigências do mundo globalizado. Melhoramos consideravelmente a qualidade de uma produção que sempre foi boa. As pesquisas da Embrapa foram fundamentais para isso, gerando qualidade e preço, possibilitando aos nossos grãos, por exemplo, fama e prestígio que geraram negócios e divisas para o Brasil. Cabe aqui uma observação: nenhum outro país do mundo – nem as maiores potenciais – tem nada parecido em qualidade, seriedade e competência técnica com a Embrapa. Digo isso para prestar uma justa e necessária homenagem a uma das faces mais vitoriosas, mais generosas e mais respeitáveis de nosso país, formada por técnicos do mais alto nível e por funcionários públicos que orgulham o Brasil e tem feito muito por nosso país e seu desenvolvimento.

O setor da pecuária deverá experimentar uma fase áurea no ano que se inicia por conta do aumento na demanda pela carne, indicando um considerável aumento nos preços da arroba do boi. E esse setor tem a marca do empreendedorismo dos pecuaristas brasileiros, que sabem fazer bem feito, que não deixam a qualidade de nosso rebanho baixar de seu altíssimo padrão e ganham mercados internacionais ano após ano. Citemos o caso emblemático do Grupo JBS Friboi, de Goiás, hoje a maior empresa mundial no setor da carne, mostrando a capacidade e o sucesso do Brasil vencedor da Era Lula.

A agricultura e a pecuária formam o mais sólido pilar de nossa vida econômica. Não há Brasil rico com agricultura ou pecuária fracas. Vem do campo a força e a riqueza de um país que deixou a área do subdesenvolvimento e adentrou o campo fértil do desenvolvimento sustentável, do progresso com justiça social, da democracia com oportunidades e mobilidade social.

O PAC é a mais importante iniciativa de um governo em toda a história do Brasil no sentido de dotar o campo das condições de competitividade e infra-estrutura. As rodovias, as novas usinas hidrelétricas, a reconstrução de boa parte de nossa malha viária, a ampliação dos portos e a construção de novos terminais portuários são a contrapartida do poder público ao setor que mais vem colaborando para o desenvolvimento nacional, a superação de nossos problemas estruturais e das injustiças em nosso tecido social.

O Brasil já sabe que vem do campo a força que nos leva para frente e para o alto. Esse Brasil de botina, de chapelão, de mãos calosas, de sorriso aberto, de máquinas sulcando a terra fértil desse interior abençoado, é o Brasil que não se intimida com as crises e as supera, que não desiste jamais, que não se entrega nunca, que vence sempre. De grão em grão, chegamos às portas de um novo tempo.

(*) Delúbio Soares é professor

Siga o Companheiro Delúbio do Twitter

Diário da Manhã

Portal 18o graus

Jornal Página Aberta