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José Mujica, presidente eleito do Uruguai

Artigo publicado no Diário da Manhã – GO – em 17 de dezembro de 2009

(*) Delúbio Soares

Após a vitória dos aliados em 1945, varrendo do cenário mundial a ameaça do nazismo, experimentamos na América Latina uma onda democrática expressa na ascensão de governos populares e nacionalistas. O continente foi sacudido por fatos marcantes que influenciaram o processo histórico nos anos seguintes. Tratou-se de um dos momentos mais instigantes e profícuos da vida latino-americana. Hoje, passado mais de meio século, podemos ver a influência decisiva que esse importante ciclo exerceu nas vidas de nossos países, com reflexos ainda nos dias de hoje.

Com a volta da Força Expedicionária Brasileira, após extraordinária participação nas batalhas pela libertação da Itália, com o mundo livre da ameaça do Eixo nazi-fascista, os brasileiros experimentaram o regime democrático, com a legalização do Partido Comunista, com a eleição da Assembléia Constituinte e uma nova e avançada (para os padrões da época) Constituição. Fazíamos uma opção clara pela democracia e pela pluralidade ideológica, só interrompidas quase duas décadas depois com o golpe de 64.

Na Argentina, Perón implementava mudanças estruturais que afrontaram a oligarquia rural. Sem Evita, cairia em 1955, rumando para um exílio de década e meia, não sem antes dividir a história de seu país em “antes” e “depois” dele, mercê de sua incrível popularidade e da aliança tácita que estabeleceu com a classe trabalhadora, os sindicatos, os estudantes e a pequena burguesia. Um longo processo, contraditório e tumultuado, se seguiria com eleições e golpes, onde governos democráticos e generais-de-plantão se alternariam na Casa Rosada, até a volta triunfal do velho caudilho no início dos anos 70. Morreria no poder, deixando-o nas mãos de Isabelita, sua viúva e vice-presidente, logo deposta pelos militares.

Nosso grande parceiro no Mercosul sofreria as agruras de uma das mais violentas ditaduras de todos os tempos, com mais de 30 mil mortos e desaparecidos, além do sucateamento de um importante parque industrial, do caos na importantíssima agroindústria local por conta do liberalismo econômico. Em frangalhos, a Argentina voltaria ao regime democrático sob o comando de Raul Alfonsin, vitorioso em histórica eleição. Já são mais de trinta anos de vida democrática, de consolidação institucional das liberdades públicas, com a responsabilização penal dos que escreveram com sangue as mais perversas e tristonhas páginas da história daquele grande país.

No Uruguai, tido por décadas como a “Suíça da América Latina”, uma tradição democrática sólida e um país pacato foram alvo de um auto-golpe no início da década de setenta, quando o presidente Bordaberry se uniu aos setores mais reacionários das forças armadas, fechou o parlamento e instaurou uma ditadura que arruinaria o país política, social e economicamente.

Desde meados dos anos 80 os uruguaios voltaram ao leito natural de sua história, experimentando a alternância entre Brancos e Colorados no poder e vivendo, nos dias de hoje, um dos melhores momentos de sua história: companheiro Tabaré Vasquez, líder da Frente Ampla, chegou ao espetacular índice de mais de 80% de aprovação popular, recuperou a autoestima nacional, comandou um crescimento econômico jamais visto e elegeu seu sucessor, José Mujica.

“Pepe”, o presidente eleito, passou anos nas prisões do regime ditatorial, mas chega ao poder sem medo e sem ódio, demonstrando imensa maturidade e despojamento para continuar o produtivo governo da Frente Ampla. Nas voltas que a história latino-americana dá, os prisioneiros da ditadura que devastou uma Nação-modelo, não só chegaram ao poder como estão realizando o melhor governo que os uruguaios conheceram!

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Rafael Correa, presidente do Equador

No Equador, após crises sucessivas, com um rodízio intermitente de regimes e presidentes, que trouxeram enorme sofrimento e pouco progresso a um país pequeno mas riquíssimo em recursos naturais, seu valoroso povo encontra o futuro pelas mãos de um economista formado em Harvard mas não convertido às práticas danosas do capitalismo irresponsável. Rafael Correa, homem de profundas convicções nacionalistas e com arraigado sentido de latinidade, realiza governo com inédita aprovação popular e conquistas na saúde, educação e infraestrutura. Trata-se de um dos melhores quadros da esquerda em todo o Continente, mas, antes de tudo, é um modelo de novo homem público, com claros compromissos com o desenvolvimento e a distribuição de renda.

Na Bolívia, vencendo preconceitos seculares e equívocos cometidos por sua própria equipe de governo, Evo Morales se reelegeu com votação consagradora, após oferecer ao seu sofrido povo um crescimento econômico jamais alcançado – isso, segundo indicadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Mesmo em relação ao Brasil, e após longa e delicada negociação com a Petrobrás por conta do gás que compramos, a Bolívia adentra o cenário internacional conseguindo recuperar boa parte das décadas perdidas entre golpes e tentativas de golpes. No início da década de 50, comandando uma revolução popular e nacionalista, o estadista Hugo Paz Estensoro nacionalizou a mineração e iniciou uma série de mudanças profundas na mais injusta das sociedades de seu tempo, onde uma oligarquia impiedosa concentrava impressionantes 97% da riqueza nacional, enquanto a maioria absoluta dos bolivianos simplesmente não comia. A Bolívia ainda é pobre, mas estuda, come, pensa, escreve sua história e decide o seu futuro. Melhor assim.

No Chile do luciferiano general Pinochet a história tem sido caprichosa. A filha de um general assassinado logo após o golpe que derrubou Allende em setembro de 1973 é a presidenta da República e tem “apenas” 82% de aprovação. O país tem índices de desemprego, analfabetismo, mortalidade infantil e expectativa de vida semelhante aos melhores países europeus. E o Chile que aplaude a socialista Michelle Bachelet ainda não decidiu quem vai ser o seu próximo presidente, mas já tomou uma decisão unânime há algum tempo: ditadura nunca mais.

Quem abriu o caminho para todas essas transformações na América Latina foi a vitória do presidente Lula em 2002. Ela teve tamanha repercussão internacional e imensa importância história que acabou propiciando o avanço da esquerda democrática, dos que governam com olhos para os que precisam, com compromissos humanistas e com sentido de solidariedade, que estabilizaram suas economias e suas moedas, que incentivaram a mobilidade social e novos paradigmas nas vidas de seus povos.

A chegada ao poder das forças progressistas agrupadas em torno da candidatura petista acabou por se constituir em um câmbio seguro, prudente mas profundo, de significação histórica em todo o continente. Foi uma imensa onda que se ergueu das urnas, foi uma revolução silenciosa que fincou profundas raízes em todos os países vizinhos, refletindo-se nos processos político-eleitorais das Nações com as quais temos afinidades e laços que se fortalecem a cada dia mais. O importante passo dado pelo Senado Federal brasileiro, com a aprovação da Venezuela no Mercosul, também fortalece sobremaneira o bloco dos países latinos frente ao mundo.

Se nos anos 60 esse processo, facilmente constatável, manifestava-se com a “exportação” de novos métodos de tortura e de torturadores na tristemente célebre “Operação Condor”, agora o Brasil exporta democracia e bons exemplos de convivência democrática e de gestão econômica, distribuição de renda e avanço social. Estamos influenciando positivamente todo um continente, e ajudando seus países a melhorar a qualidade de vida de centenas de milhões de pessoas. É o “efeito Lula”, festejado pelo impecável artigo do primeiro-ministro Zapatero, da Espanha, no diário “El País”, de Madrid: “El hombre que asombra el mundo”.

Quando vejo mulheres e indígenas, ex-presos políticos e lideranças populares com o prestígio internacional do presidente Lula, por exemplo, fazendo a nova história de um continente cuja vida foi marcado por lágrimas, sangue e heroísmo, com revoluções e golpes, sinto a imensa emoção de saber que vivemos uma das páginas mais belas de toda existência latino-americana. Não queremos mais ditaduras, apostamos no desenvolvimento, na democracia e no poder que vem do povo. È magnífico saber que todo um continente optou pelo encontro com o futuro, prevalecendo a esperança e vencendo o medo.

(*) Delúbio Soares é professor

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http://www.jornalpaginaaberta.com.br/?op=2&&tipo=1&&noticia=c2c424ca6cac3c9e5415a1df9aa46d06&&edicao=10

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