UM PROJETO DE NAÇÃO

UM PROJETO DE NAÇÃO

Artigo publicado no Diário da Manhã – GO – 05 de novembro 2009

(*) Por Delúbio Soares

Quando Dom João VI, fugindo das tropas de Napoleão que invadiam o seu Portugal, chegou ao Brasil e tomou iniciativas surpreendentes, como a fundação do Banco do Brasil, a criação do Jardim Botânico e o estabelecimento de uma política comercial, pela primeira vez e na virada do século XVIII, nascia um projeto de país, mesmo que de forma desorganizada, atabalhoada e difusa.

Os povos se estruturam em torno de países formados geográfica, social, econômica, cultural e etnicamente. Somente com o passar dos anos, o delineamento de um Estado soberano e o surgimento de sociedades fortes, cultas e progressistas, os povos logram transformar esses “países” em autênticas “Nações”. Alguns de forma mais rápida e consequente, outros – como nós, no jovem continente americano e os povos da África – mais sofrida e vagarosamente.

Não foi diferente com os Estados Unidos, por exemplo, que guiados pela clarividência de homens como Jefferson, Lincoln e Roosevelt, cada qual a seu tempo e hora,  transformaram uma colcha de retalhos territoriais, dividida entre um sul pobre e reacionário e um norte rico e civilizado, na mais poderosa, unida e democrática Nação do mundo.

Vivemos com Pedro II, apesar do episódio trágico da Guerra do Paraguai, um período fecundo de realizações, com o grande Mauá implantando o industrialismo e a chegada das ferrovias, do telegrafo, do telefone, a libertação de nossos irmãos negros da terrível mácula da escravidão, além da reconhecida austeridade do velho Imperador.

Com Getúlio Vargas, notadamente na primeira metade da década dos anos 40, mesmo que ainda sob o Estado Novo, pudemos vislumbrar o destino de grandeza que a história reservava ao Brasil através das mãos do caudilho e de uma clara tentativa de dar claros contornos de país em desenvolvimento ao gigante adormecido e preso às estruturas de um Estado agrário, arcaico, reacionário e exaurido em seu conservadorismo. Sob a batuta do mineiro Gustavo Capanema, o nosso mais importante ministro da educação em todos os tempos, Oscar Niemeyer, Heitor Villa-Lobos e Cândido Portinari lançaram as bases de nossa moderna arquitetura, da música contemporânea em sua melhor fase criativa e da mais revolucionária e bela quadra de nossas artes plásticas. As leis trabalhistas, o voto secreto, o início da implantação da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda, complementavam no campo institucional e econômico a paisagem de um país que, em pleno regime ditatorial, desabrochava de forma irrefreável.

Voltando nos braços do povo de seu exílio voluntário em São Borja, Getúlio como visionário que foi, funda a Petrobrás e lança as fortes bases econômicas sob as quais, poucos anos depois, JK, não menos visionário e com seu otimismo contagiante e fabulosa audácia, sacudiria as estruturas de um país efervescente que devia, queria e podia crescer. E cresceu! Da construção de Brasília à Bossa Nova. Do Cinema Novo à indústria automobilística. Num surto de otimismo e movida por insuspeitada auto-estima os brasileiros viveram 50 anos em cinco. JK seguramente legou-nos um país mudado para melhor, aproveitando oportunidades, descentralizando o desenvolvimento e o eixo do poder, caminhando para o centro-oeste e integrando um país de dimensões continentais. Pela quarta vez, mas de forma mais rápida e precisa, o país grande experimentava a odisséia de poder transformar-se em grande Nação.

Com Jânio tivemos, em curtos e pitorescos sete meses, ao menos uma política externa interessante, comandada pelo brilhante Affonso Arinos e com uma independência absoluta em relação aos EUA. A “política externa independente” do homem da vassoura deixaria profundas marcas em nossa diplomacia, uma das mais competentes e respeitadas de todo o mundo. Com Jango, presidente democrata e brasileiro generoso, viveríamos a experiência do conflito ideológico e das tentativas de ampliar os espaços das forças democráticas em lutas pela reforma agrária, pela lei de remessa de lucros, pelas reformas de base. O golpe em 1° de abril de 1964 foi um duro e rude chega-prá-lá nas forças populares e o resto nós sabemos muito bem…

Com a ideologia da segurança nacional, com a subordinação aos desígnios dos grandes e mais nocivos interesses internacionais, o regime de 64 deixou mais dores que sorrisos. Poderíamos ressaltar algum avanço na questão das telecomunicações e da infra-estrutura viária, mas nada significativos se recordarmos a perda da liberdade, o reino das trevas, os companheiros que se foram para nunca mais. Não há progresso que valha uma vida humana sequer.

Com a redemocratização avançamos no campo institucional, recuperamos o direito de eleger nosso presidente, consolidamos a opção dos brasileiros pelo regime democrático com sua grandeza e suas mazelas, mas sabendo que não há nada melhor do que ele e ponto final. Da morte de Tancredo ao impeachment de Collor, da interinidade de Itamar aos anos do tucanato, mais decepções e retrocessos do que avanços sociais e ganhos políticos. Vimos o Brasil quebrar várias vezes, embora muitos teimem em desconhecer esse período trágico de nossa história recentíssima.

A partir de 2002 retomamos o fio da meada do velho Getúlio, o elo perdido dos anos JK, a política externa de Jânio e Affonso Arinos, a opção pelos pobres do saudoso Jango. O governo popular e democrático do presidente Lula é a consolidação de um projeto de Nação. Vai do básico e elementar – comida para quem tem fome – a novos paradigmas para o desenvolvimento econômico e social – o Pré-Sal, o PAC, o Bolsa-Família.

O país derrotado de oito anos atrás, com sua infra-estrutura débil, sucateada e carente de investimentos, sem crédito e sem credibilidade, com um futuro incerto, deu lugar ao Brasil que quitou seus débitos internacionais e emprestou dinheiro ao FMI. Hoje, no caminho inverso ao do passado, temos crédito e prestígio. Enquanto isso os Estados Unidos se recuperam lentamente do desastre dos dois mandatos de Bush e suas nefastas conseqüências. São as voltas que o mundo dá.

As forças que elegeram o mais popular dos presidentes desde JK, sob o comando desse mesmo presidente, ousam implementar de forma cautelosa, mas decidida, um projeto de Nação. Estamos transformando o sonho em realidade. Na Nação que vislumbramos o trabalhador é respeitado, o empresário investe no país, a educação é priorizada, a saúde será de alta qualidade, o país moderno e a sociedade justa. O povo é feliz: come, estuda, vota, elege, manda, decide.

Perdoai-me a confissão que há de incomodar os derrotistas de sempre: quem tem olhos, ouvidos, coração e consciência, há de ver, ouvir e sentir a formidável e pacífica revolução que o presidente Lula vem comandando. Eu a sinto com emoção e alegria. O velho Brasil, país grande e cansado, está dando lugar a uma Nação jovem, ganhadora, visionária e futurosa.

Que seja muito bem-vinda. Os brasileiros a merecem.

(*) Delúbio Soares é professor

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