Artigo publicado no Diário da Manhã – GO- 19 de novembro de 2009
(*) Delúbio Soares
Amanhã se comemora o “Dia da Consciência Negra”, dedicado não só a justa homenagem aos nossos irmãos da raça negra como, sobretudo, a profunda reflexão sobre a questão do preconceito e da segregação social em nosso país. Esse dia relembra a epopéia de Zumbi, guerreiro e herói, e do Quilombo dos Palmares, uma das mais belas páginas de nossa história e, certamente, o início da luta pela libertação do povo negro.
A libertação dos negros culminou com o gesto corajoso da Princesa Isabel, antecedido pela campanha abolicionista, onde brilharam nomes como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Rui Barbosa, André Rebouças e o genial poeta Castro Alves, comovendo multidões com seus versos declamados em praças públicas, expondo a chaga da escravidão e sacudindo as consciências adormecidas. Mas a luta pela integração plena do negro na sociedade brasileira é tarefa que se impõe a cada dia, que demanda luta, esforço e conscientização.
Clementina de Jesus
Vivemos numa democracia plena, com ampla convivência entre várias raças, fruto da multifacética miscigenação de nosso povo. Começamos com a união do branco europeu com o índio nativo, agregando o sangue de nossos negros. Na virada do século passado, a bordo do Kasatu Marú, chegaram os primeiros japoneses, que construíram uma das mais talentosas colônias e se integraram plenamente em nossa vida social, política e econômica. Depois vieram outros orientais, como os coreanos e os chineses, que dão contribuição efetiva no desenvolvimento nacional e adotaram o Brasil como sua Pátria e pelo Brasil, também, foram adotados. E poderia escrever sobre os sírio-libaneses, os judeus, os espanhóis, e tantas outras etnias que formam nossa Nação e são tão brasileiros quanto qualquer um de nós.
Pixinguinha
Mas a suposta “democracia racial” não consegue evitar que exista algo tão odioso quanto a escravidão pura e simples. Existe, está presente, se esconde sob vários disfarces e sob o manto de nossa desinformação ou indiferença. É a segregação social. É o racismo que assume a forma de um ‘apartheid de oportunidades’, onde negros, mulheres, idosos, quilombolas, indígenas ou homossexuais, são preteridos ou não dispõe da condição de acesso ou de competitividade, de inclusão social ou ascensão na escala de valores de nossa sociedade.
Lima Barreto
Esse tipo de separação, que assume contornos de desumanidade e humilhação, é dos mais nocivos e condenáveis procedimentos. É subterrâneo, mas persiste. É hediondo, mas sobrevive. Quantos e quantos irmãos negros não puderam ter acesso às universidades brasileiras antes do governo Lula, num gesto de coragem e competência, encarar a realidade dura desse apartheid e criar a política de quotas, reservando uma parcela das vagas nas salas de aula dos cursos universitários para os negros? Quantos e quantos talentos foram desperdiçados, quantos e quantos profissionais fabulosos deixaram de se formar por não terem nascido brancos com os olhos azuis ou verdes? Quantos e quantos médicos, engenheiros, professores, advogados, não se formaram, deixaram de adentrar o mercado de trabalho por conta de um dos mais desprezíveis preconceitos ainda enquistados no seio da sociedade brasileira: o racismo. E esse preconceito se tornou mais claro ainda com as reações impressionantemente raivosas, beirando a inconseqüência, com que parte da elite intelectual condenou a política de inclusão dos negros na vida universitária levada a cabo pelo governo Lula. Não deu para esconder, o véu caiu. Mas a vitória final foi de milhares de jovens – e em poucos anos serão milhões! – que agora podem freqüentar as universidades e desenharem o futuro com talento e perseverança. Essa é, na minha modesta avaliação, uma das mais fabulosas conquistas da raça negra no Brasil, além de um legado perene do presidente Lula, um Estadista que sabe muito bem, e na própria carne, o que é o sofrimento e o preconceito social.
Gilberto Gil
Existe hoje uma política efetiva de valorização e inclusão do negro na sociedade e na vida política do Brasil. Há um ministério encarregado disso e o trabalho que ele desenvolve é dos mais profícuos e exitosos. E à frente de tal ministério, o da Igualdade Racial, está um negro de corpo e alma, notável combatente das causas populares e deputado federal pelo PT carioca, meu amigo Edson Santos. Não deixaria de salientar que se trata de uma das melhores figuras da vida pública nacional, pela seriedade, pelo trabalho desenvolvido, pela coerência em suas atitudes e pela inflexibilidade em seus princípios. Há, meus amigos leitores, um ministro negro trabalhando silenciosa e competentemente a inclusão de nossos irmãos negros numa sociedade que ainda teima em desconhecer, hoje menos que ontem, é verdade, a realidade de que somos, antes de mais nada, um país de profundas, belas e irrevogáveis raízes africanas.
Benedita da Silva
Nesse dia consagrado a homenagear os negros e a lutar pela emancipação social, política e econômica de todos eles, elevo minha voz para cantar a beleza dessa raça que é um dos pilares de nossa nacionalidade. Faço questão de relembrar sua contribuição notável ao nosso desenvolvimento, mesmo podada pelo racismo, inibida pelo preconceito, abandonada pelos governos anteriores. Orgulho-me de meus amigos da raça negra, cuja fidelidade supera as barreiras da conveniência e do momento, e os faço representar nos amigos Benedita da Silva e Antônio Pitanga, meus companheiros.
Milton Nascimento
Que seria desse país sem o samba, sem a congada, sem a capoeira, sem o vatapá, sem a alegria contagiante e a ginga de nossos negros? O que seria de nossa música sem o talento de Pixinguinha, sem a sensibilidade de Cartola, sem a alegria de Donga, sem a genialidade de Milton Nascimento, sem a elegância de Ataulfo Alves, sem a obra de Gilberto Gil? O que seria de nossas artes plásticas sem as cores de Heitor dos Prazeres e sem as formas precisas de Emanuel Araújo? O que seria de nossa cultura sem os versos de Cruz e Souza, sem a sabedoria de Milton Santos, o genial demografo que o mundo respeita e celebra, sem o legado literário de Lima Barreto? O que seria de nosso futebol sem o Rei Pelé? O que seria de nosso tempo sem a figura maior e luminosa do herói da unificação sul-africana, o grande Nelson Mandela?
Capoeira
O que seria desse país sem essa gente que veio da África nos porões de navios negreiros, sofreu nas senzalas, não perdeu a alegria, conquistou a liberdade e vive no coração de todos nós?
(*) Delúbio Soares é professor
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Amigo Delúbio,
Obrigado pela cortesia em me permitir desfrutar de um texto escrito com grande eloqüência e sensibilidade. Desejo receber sempre os seus escritos.
Como não foi possível desfrutarmos da sua companhia na festa de inauguração da Redetv!, espero recebê-lo brevemente em visita a sede da Tecnet, em Alphaville.
PS. A personalidade do presidente Lula deixou um impressão muito positiva em todos nós!
Obrigado e um forte abraço!
AMIGO DELUBIO,
MUITO BOM, PARABÉNS !!!
TO COM SAUDADES, DÁ NOTICIAS.
ABRAÇOS,
ZÉ PESSOA
Grande Delubio.
Li seu artigo e me emocianei, repassei para alguns amigos que me retornaram com grande elogios
Grande abraços
Parabéns e grande abraço.
Nelson Gatz
Ficou muito bom, parabéns.
Marcio
Parabéns! Além de dominares
a ciência matemática, conheces muito bem nosso vernáculo.
De fato, é necessário consolidar aos nossos nossos irmãos negros as mesmas oportunidades usufruídas por outras etnias, inclusive a minha: “parda”. E para esse desiderato convergem as medidas recém-adotadas pelo Governo do
Presidente Lula, de todos conhecidas.
Ressalto que há tempos venho lendo teus editoriais, sempre pertinentes e com elevado senso crítico.
Saudações
Parabenizo nobre companheiro pela riqueza do conteúdo do artigo sobre nossos irmãos negros!
Delúbio,
tive a oportunidade de ler sua matéria e achei que ela é pertinente e oportuna, a qual você encerra de maneira magnífica .
“O que seria desse país sem essa gente que veio da África nos porões de navios negreiros, sofreu nas senzalas, não perdeu a alegria, conquistou a liberdade e vive no coração de todos nós? ”
Parabéns!!
SERGIO L. M. DINIZ
Olá, companheiro Delúbio Soares.
Aproveito a oportunidade para parabenizar pela forma perfeita e harmoniosa do texto. E quero ti dizer, que esse belisino texto com certeza foi alinhavado em um momento de profundo sentimento socialista e petista.
Com Raça & Classe
José de Oliveira
Grande Companheiro Delúbio.
Parabéns pelo artigo. Reflexão lúcida e real sobre o apartheid social que infelizmente ainda vivenciamos.
Forte abraço.
José Roberto Martins