Mulher e militante feita de ferro e flor.

 

jorge_anistia79

Sobrevivente de duas grandes guerras mundiais, combatente pelas causas da liberdade e da democracia, Frida Gueier Zumbano, a “Fró”, companheira petista, deixou-nos na plenitude de seus 94 anos.

Deu sentido amplo à vida: amou e foi amada, combateu, acreditou em seus ideais, lutou e viveu por eles e eles sobreviverão à sua figura extraordinária.
Abaixo, texto de seu neto, Breno Altmann, dando exata noção da mulher invulgar e visionária que foi “Fró”:


“Morreu ontem, aos 94 anos, minha avó materna, Frida Gueier Zumbano, que todos conheciam como Fró.
Judia e polonesa, nascida quando a Europa sangrava a primeira guerra mundial, adolescente ainda alistou-se nas fileiras do movimento comunista. O mundo vivia, então, os ventos de esperança e renascimento soprados pela revolução russa, liderada pelos bolcheviques de Lênin e Stálin. Assolada pela crise econômica de 1929 e a perseguição aos judeus, a família Gueier, como tantas outras,  decidiu imigrar. Primeiro veio seu pai. Depois, Fró com três de seus irmãos. A mãe faleceu na Polônia. As irmãs mais velhas decidiram ficar. Militantes da resistência ao nazi-fascismo, foram assassinadas pela máquina de guerra e genocídio de Hitler.

Aqui no Brasil, vivendo desde 1931 em uma pequena cidade do interior paulista chamada Ipauçu, Fró e sua irmã Bela logo se vincularam à única célula comunista da cidade. Entraram em conflito com o pai, comerciante abastado, de formação humanista, mas homem religioso e contrário à opção ideológica das filhas. Romperam com a família, se mudaram para São Paulo e foram trabalhar como tecelãs em uma fábrica paulistana.Tornarem-se ativistas sindicais e militantes do PCB, apesar do português parco que tanto divertia seus companheiros de partido.

Um dia foi cumprir tarefa no Largo Padre Péricles, em Perdizes. Levava uma mensagem da direção estadual para um dos chefes do setor antimilitar, a divisão do partido encarregada do trabalho militar e da preparação das ações conspirativas e insurrecionais. Seu codinome, na época, era Iracema. Encontrou-se pela primeira vez com Guarani, cujo nome verdadeiro era Waldemar Zumbano, o Neno, meu avô. Foi literalmente amor e companheirismo à primeira vista. Nunca mais se separaram.

Casaram-se na clandestinidade, em um cartório de rua, com testemunhas convocadas na calçada. Logo nasceu minha mãe, Raquel. Viviam de casa em casa, fugindo da reação da ditadura varguista à rebelião de 1935. Foram anos de prisão, tortura, assassinatos. Mas também de sonhos e lutas. Fró e meu avô faziam parte de uma geração que esteve disposta a matar ou morrer pela grande causa revolucionária que sacudiu o século XX.
Assim viveram até a velhice. Simples, cultos, solidários, coerentes. Criaram a filha e ajudaram na educação dos três netos: além de mim, meus irmãos Fábio e Rogério. Ainda tiveram tempo de cuidar dos bisnetos (Teo, Tom, Louise, Gustavo, Vera e Daniel), alguns viram crescer. Foram para todos nós um exemplo inigualável de retidão, lealdade e coragem.

Fró sobreviveu sete anos à morte de minha mãe e cinco à de meu avô. Guardava para si o sofrimento e a dor. Para todos ao seu redor só tinha a entregar humor, carinho, apoio, ânimo. Junto à família ou na política. Eleitora de Lula, sua primeira reação durante a crise de 2005, quando muitos mergulharam na confusão e no medo, foi indignar-se contra a ofensiva golpista e querer dar um abraço nos dirigentes que eram alvo da sanha direitista para sabotar o governo petista. Atravessou a vida de um só lado do rio, da Polônia fascista ao Brasil desses tempos de mudança. Sempre com um comportamento absolutamente irrepreensível, moralmente, eticamente, politicamente.
Parte uma avó amada, inesquecível. Mulher e militante feita de ferro e flor.”

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