Ditaduras, nunca mais

Ditaduras, nunca mais

Artigo Publicado no Diário da Manha – Goiânia 01 de outubro de 2009

Ditadura Militar (1964-1985)

Um dos patrimônios do Estado brasileiro é a sua diplomacia. Desde o Barão do Rio Branco, um brilhante estrategista que fortaleceu nossa posição no cenário internacional, agregou o Acre – então território boliviano – ao Brasil e escreveu uma página de honradez e competência em nossa história,  o Itamaraty é um gerador de profissionais reconhecidos e respeitados em todo o mundo.

Nos mais diferentes governos, em todos os regimes pelos quais passamos, com a desonrosa exceção do apoio logístico da ditadura do general Médici ao golpe de Pinochet, ensangüentando o Chile em setembro de 73, o Brasil teve no profissionalismo de sua diplomacia e na condução de sua política externa, pontos fortes da vida institucional. Jânio Quadros impulsionou política externa independente e de aproximação com os países socialistas; o general Geisel reconheceu a República Popular da China, além de celebrar acordo nuclear com a Alemanha desafiando a contrariedade dos Estados Unidos, por exemplo.

Desde há muito defendemos a autodeterminação dos povos, o respeito absoluto aos regimes democráticos, a condenação decidida e vigorosa a qualquer tipo de violação dos direitos humanos e todas as ditaduras, tenham o matiz ideológico que tiverem. Tal postura, além de atender ao pressuposto da boa-convivência entre os povos, salienta o estágio elevado de civilidade, de formação democrática e espírito solidário do Brasil e de seu povo.

Perseguidos de todo o mundo encontraram no Brasil o porto seguro e a garantia da preservação de suas vidas e das de seus familiares, recebendo a solidariedade do país e o calor da hospitalidade de nossa gente. E, em verdade, isso é a retribuição que os povos devem entre si, já que no decorrer dos processos históricos ao longo dos séculos, o exílio tem sido o destino de patriotas ou de ditadores, de intelectuais ou de guerrilheiros, de artistas ou de cidadãos comuns. Pelos desígnios divinos e ironias da história, quantos governantes tiveram o exílio por destino e quantos exilados retornaram para exercer o poder…

E não devemos discutir a ideologia de quem bate às nossas portas. No carnaval de 89 o general Stroessner, depois de mais de três longas e duras décadas de poder absoluto, deixou o “seu” Paraguai e, acolhido em nossa Embaixada em Assunção, partiu para o exílio em nosso país. Aqui morreria mais de uma década após o retorno da democracia a nosso parceiro em Itaipu. Mas foi o mesmo Stroessner, ditador com mão-de-ferro, que possibilitou ao saudoso Presidente João Goulart, exilado em Montevidéo após o golpe de 64, que viajasse para tratamento médico na Europa com passaporte diplomático paraguaio, o mesmo documento que o regime militar brasileiro negava a Jango. Nessa ironia da história, tanto o governo brasileiro quanto o ditador paraguaio agiram de forma correta, reconhecendo que os perseguidos, de onde forem e que ideologia professem, têm direito à vida, à proteção e à solidariedade internacional.

Longe de personificar a questão na figura do mandatário deposto, o Brasil não somente procede de forma correta ao abrigar perseguido que se apresenta à uma nossa embaixada, como o governo do Presidente Lula, através do Itamaraty, está certíssimo em condenar de forma veemente o golpe que derrubou um presidente eleito democraticamente e a clara inspiração ditatorial dos que o sucederam e hoje fecham emissoras de TV e de rádio, censuram a imprensa e ameaçam a liberdade de um povo irmão. Mais do que golpistas, são tenebrosos.

E não é somente o Brasil quem repele a quartelada hondurenha. É o mundo civilizado, são os Estados Unidos e a ONU, a OEA e a unanimidade dos países ao negarem o reconhecimento aos usurpadores do poder num continente que acumulou golpes, purgou ditaduras, conheceu a dor de milhões de exilados, centenas de milhares de desaparecidos e não quer voltar a esse tempo trágico, que nos entristece e nos envergonha.

O que está em jogo não é apenas a disputa pelo poder num país pequeno e carente. Quem Zelaya é ou deixa de ser. É muito mais que isso. Aproveitemos esse episódio para renovar nosso credo democrático e alertar os golpistas de qualquer país, de qualquer ideologia, de qualquer inspiração, que em pleno século XXI o Brasil e os brasileiros não querem para os demais povos o que não aceitam e repelem para si mesmos.

(*) Delúbio Soares é professor

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Artigo Publicado no Diário da Manha – Goiânia 01 de outubro de 2009

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