Engana-se quem pensa que Goiânia é uma capital secundária ou, como em décadas atrás, era tida por “fazenda asfaltada”. Negativo. Excetuando-se os problemas inerentes à condição de uma já metrópole, não ficamos a dever em nada às melhores cidades do País. Oferecemos aos que nos visitam uma cidade planejada, bela, contando com toda tecnologia e modernidade em seus serviços, o conforto de uma boa rede hoteleira, uma série de excelentes restaurantes e bares, de centros comerciais e shoppings, impulsionando o que se convencionou chamar de “turismo de negócios”.
Soma-se a isso uma localização estratégica da capital dos goianos: no centro do Estado e no coração do Brasil. Com a divisão do Estado e o nascimento do Tocantins, tivemos a oportunidade de assumir uma configuração geopolítica e econômica ainda mais privilegiada, com fronteiras amplas para com diversos Estados, uma sociedade homogênea e maior identificação cultural.
Se já tratei aqui do problema de nosso aeroporto Santa Genoveva, hoje convertido em gargalo do desenvolvimento goiano, vou para o rumo oposto e saliento a grandeza de nosso Centro de Convenções, um dos melhores da América Latina, apto a sediar eventos de porte nacionais ou internacionais, dando uma mostra do que o talento, a ousadia e o espírito empreendedor dos goianos é capaz de construir. É dado importante no cenário do turismo e na área de serviços que a cidade disponibiliza tanto à sua população quanto aos que nos visitam. Há, ainda, em Goiânia uma frota de mais de 1.231 táxis. Uma grande frota. E, muito mais que sua importância numérica, é a qualidade do serviço prestado, com automóveis em excelente estado de conservação, profissionais sérios e competentes, além de uma tarifa bastante razoável.
Não existe em qualquer parte do mundo nenhuma grande cidade onde os taxistas não desempenhem papel destacado na paisagem urbana, na vida social e econômica das comunidades. Em Londres, eles são os condutores dos “London Taxi”, carrinhos bojudos, estilo anos 50, black e cruzando a velha metrópole de ponta a ponta tanto como serviço impecável quanto como verdadeiro símbolo turístico da velha cidade. Em Buenos Aires, mais de 30 mil carros formam a impressionante frota negro y amarillo, com tarifa baixíssima e convertidos no principal meio de transporte tanto dos turistas quanto dos homens de negócio. Em Nova York os yellow taxis contribuem com o sistema de transporte da cidade, em especial com o metrô, substituindo o carro próprio e, desde sempre, fazendo parte da cultura da impressionante metrópole norte-americana.
Conheço de perto esse segmento, participei da luta por conquistas importantes para os nossos taxistas, em especial de uma reivindicação nacional da categoria, mas que foi impulsionada em Goiânia. A história é bonita e o resultado foi dos melhores.
Em 1982, no governo do general João Figueiredo, foi promulgada uma lei que concedia aos taxistas a isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados, o IPI, e do Imposto sobre Circulação de Mercadorias, o ICMS, na compra dos carros. Comprovando sua atividade, o taxista tinha o direito de adquirir o veículo zero- quilômetro, com as seguintes condições: que fosse movido a álcool e só transferível após três anos.
Taxistas apressaram-se para se enquadrar no benefício, imaginando que a lei só teria efeito naquele ano. Para nossa felicidade, todo ano a lei era novamente renovada. Foi um avanço para a classe dos taxistas. Naquela época, muitas ruas de Goiânia ainda não tinham asfalto e os carros estragavam muito mais rápido do que hoje. Praticamente todo o dinheiro que era ganho no suor do dia-a-dia, na labuta dura e sem descanso, rodando de ponto a ponto na cidade, era gasto na manutenção do carro.
Se por um lado a lei beneficiava os taxistas, por outro tinha propósito muito maior e trazia embutida uma grande jogada para alavancar o álcool como novo combustível automotivo no Brasil. Vejam: apenas os carros movidos a álcool teriam a prerrogativa de ter o benefício. Isso porque o álcool não era visto com bons olhos naquele tempo. Era sinônimo de problema, de carro pifado nas primeiras brisas da manhã, onde era necessário empurrar o veículo para pegar “no tranco”. Hoje, o etanol como combustível é referência internacional de energia renovável, tendo sido o Brasil pioneiro na sua utilização, bem como na criação de tecnologia ao biocombustível. Temos que reconhecer: foi um avanço, com a renovação da frota a um custo mais justo para os profissionais do táxi.
Em 2004 percebi que em três anos os táxis já estavam bem desgastados, com uma significativa perda no preço de mercado do carro quando os taxistas iam trocar seu intrumento de trabalho por um mais novo. Impressão que confirmei nos bate-papos com taxistas de Goiânia e de São Paulo, sempre bem dispostos a uma boa conversa nas idas e vindas do dia-a-dia. A maioria dos taxistas comprava o seu carro com a isenção. “Vou comprar um carro no plano”, era o que eu mais ouvia.
Se para o condutor comum do dia-a-dia em três anos o carro já começa apresentar sinais de desgaste, para o taxista, que roda cinco, seis vezes mais a cada dia de trabalho, em três anos já está passando da hora de trocá-lo por um novo. A partir dessa constatação, empenhei-me junto aos companheiros no governo federal em nome da classe, utilizando argumentos muito fortes: a necessidade de dotar nossos trabalhadores da área com novos instrumentos de trabalho e de sustento de suas famílias e fomentar a cadeia econômica, onde todos ganhariam, desde as montadoras, as revendedoras, as empresas prestadoras de serviço e principalmente a sociedade. Ganha também o meio ambiente, com carros cada vez mais modernos, fabricados com a tecnologia de redução da emissão de gases poluentes.
Levei a Brasília a reivindicação de que precisávamos baixar em um ano, pelo menos, o tempo para a troca do veículo. Diminuindo de três para dois anos o prazo mínimo de utilização, com a possibilidade da compra de um novo carro, o taxista ganha em agilidade, gasta menos em manutenção e combustível, oferece ao usuário um serviço ainda melhor do que o que já oferecia, dando mais conforto e segurança.
Encontrei absoluta receptividade nos companheiros que estão no governo federal. Conversei com os órgãos responsáveis e propus, então, ao discutir o assunto com vários taxistas, que se diminuísse o tempo de 36 para 24 meses. Foi através de uma Medida Provisória que a lei foi modificada. Em 2006 tive a alegria de ver essa medida aprovada no Congresso Nacional com ampla repercussão na imprensa e apoio da população.
Além de baixar de três para dois anos o período que o taxista precisava ficar com o carro antes de vendê-lo, também conseguimos fazer que a lei fosse retroativa. Ou seja, mesmo que o taxista tivesse aderido à lei antiga, automaticamente já estaria contando com o benefício da nova lei. Inclusive, milhares de taxistas em todo o Brasil, que ainda iriam esperar mais um ano para fazer a troca, imediatamente venderam seus veículos, agregando valor ao seu serviço nas ruas, girando a engrenagem econômica, incrementando nosso desenvolvimento.
Outra conquista foi a de fazer com que a isenção do ICMS fosse liberada na hora, sem ter que esperar, como no passado, a reunião do Confaz, a instância superior da área econômica, etc, etc… Conquistas que devemos atribuir às associações e sindicatos da categoria, e à Central Única dos Trabalhadores, CUT, que buscaram sempre, ao lado dos trabalhadores, mudanças importantes e avanços significativos em suas ocupações profissionais. Trabalho que guardo com orgulho no coração. Lutamos e vencemos!
São esses avanços que nos motivam a continuar em busca de melhorias para a categoria dos taxistas, como, por exemplo, a redução dos juros do financiamento dos táxis. Preços menores do que os praticados no mercado. Essa, sim, seria mais uma demonstração de valorização dessa classe. Luta justa e valorosa.
Não há uma família em Goiânia, em São Paulo, em qualquer lugar do Brasil ou do mundo que não tenha um amigo na direção de um táxi. Nos conduzem, pagam contas, levam e trazem as crianças da escola, resolvem os maiores problemas de nosso dia-a-dia, de forma confiável, segura e honesta. Estão ali no ponto, na esquina, mas fazem parte de nossas vidas. Todos nós temos um amigo taxista. Eu, com a graça de Deus, tenho milhares deles.
Delúbio Soares é professor (companheirodelubio@gmail.com)



