Existe uma inquietação no interior do Partido dos Trabalhadores. Um movimento que se pudesse, por muitos passaria desapercebido, ou melhor, nem existiria. Por isso, uma inquietação.
Recentemente Delubio Soares encaminhou um pedido de reintegração ao partido. Delubio que fora expulso pela direção nacional, por estar envolvido em um escândalo que abalou nossas estruturas, nos deixando incrédulos, diante dos fatos apresentados.
Em 2005, o Partido dos Trabalhadores passou pelo seu mais profundo teste. Fomos testados, chamados a provar que éramos realmente um coletivo com formação política, com coragem d enfrentar a realidade. Que mesmo massacrados pelo conjunto de forças externas e internas, devíamos respostas à sociedade, mas principalmente a nós mesmos, a imensa massa de militantes petistas.
Importantes quadros do partido foram imediatamente lançados ao centro das denúncias e dos embates. Assistimos e vivenciamos a força da mão acusatória. O PT, que sempre era o acusador, a transparência, a ética na política, de repente estava no meio do furacão, sendo ele o réu.
Aquilo nos esfacelava. Companheiras e companheiros expressavam um sentimento de perda, faltavam argumentos, um sentimento estranho e amargo nos incomodava, faltava chão…
Para os adversários um prato cheio. Para setores conservadores a chance de afirmar que todos são iguais, portanto, pra quê ficar do lado do PT?
Setores da imprensa, aproveitando o ódio histórico que nutrem por nós, deitaram o porrete, aproveitando para soltar tudo o que haviam acumulado de rancores e preconceitos contra nosso partido, nossa militância.
Era a grande chance de matar, aniquilar a dita raça.
De imediato, focaram nossas maiores lideranças, buscando minar não só a estrutura do governo Lula, mas também a confiança em nós depositada por grande parte da sociedade brasileira.
Não foi fácil manter a cabeça erguida e o peito aberto. Não foi fácil enfrentar o debate com pessoas que sempre nos seguiram, guiados pela nossa fé irremovível de crença nos ideais partidários.
O massacre durava 24 horas por dia e não adiantava explicações, parecia que eles venceriam.
Acertar o PT, acusando companheiros importantes do partido, quebrar a coluna do governo Lula, acertando nomes simbólicos e históricos do nosso partido, foi a estratégia, com um objetivo bem definido, fazer o impeachment de Luiz Inácio.
Externamente as cartas estavam dadas, em movimentos bem articulados, a cada dia surgia um fato novo e o buraco parecia não ter fim.
Internamente, era o pior dos cenários.
Vivemos um verdadeiro “não tenho nada com isso”!
Cada qual tentava tirar o seu, afirmando e reafirmando que não tinha autorizado ninguém a cometer atos falhos e loucuras em nome do partido.
De imediato a luta interna ganha um novo fôlego. Imaginaram uns: agora chegou a nossa hora!
Sabemos todos que a construção do processo e do projeto que levou Lula a se tornar Presidente da República foi uma coesão partidária, orgânica, articulada ao longo de muito tempo, em um processo de acumulação de vitórias que permeavam toda sociedade organizada.
Sabemos todos nos petistas, que isso não se faz do vento. Sabemos que é preciso materializar. Buscar recursos, instrumentos que possibilitem a formatação de um projeto forte, que nos possibilite enraizar nos movimentos populares, nas igrejas, sindicatos, associações, clubes… Isso tem custo, isso, requer não só força humana, requer dinheiro.
Pagar o carro de som, os adesivos, as camisetas para a eleição do sindicato, dos centros acadêmicos, da associação de moradores, e por aí a fora, se faz com dinheiro.
Qualquer um que faz política nesse país, seja em qualquer instância , sabe que é preciso de dinheiro, muito dinheiro.
Imaginem, em uma eleição para prefeito e vereadores, espalhado por todo esse país, que loucura que não é.
Délubio dedicou toda sua vida ao fortalecimento desse partido. De norte a sul, de leste a oeste, pela função de dirigente nacional e tesoureiro do PT, não tinha ele a obrigação de arrumar recursos para todas as campanhas. Mas era chamado e cobrado em todos os cantos, que faltava camiseta, faltava adesivo, faltava combustível, faltava material de toda ordem.Que era preciso dar um jeito.
Fizemos quantas campanhas? Quantas ganhamos, quantas perdemos?
Nunca vimos um ato falho de Delubio nessa trajetória. Quando foi possível carrear recursos para essa ou aquela campanha, fez dentro dos limites da lei, cumprindo rigorosamente sua função.
Mas em 2005 a bomba estourou e de repente nosso companheiro não nos serve mais, traiu nossa confiança, rompeu a barreira da ética. Quanta hipocrisia.
Delubio errou. Talvez motivado pelo sentimento que não podia errar naquela momento histórico que vivia. Talvez tenha perdido o chão.
Não podemos tirar dele o direito da defesa. Delubio afirma e reafirma que não existe dinheiro público no que é acusado. Delubio afirma e reafirma que existe um empréstimo, do qual sabemos todos, que não fora contabilizado.
Errou. Mas errou tentando acertar para o partido. Errou não tendo coragem de dizer não. Errou mas tenho a certeza que não foi por ambição pessoal.
Já foi executado por muitos. Expulso do partido, respondendo na justiça por seus atos, pede pra voltar. O cabra que muitos chamam de macho, segurou as pontas sozinho, não levou ninguém nem
o partido para o buraco. Não porque é um herói, mas porque assume a responsabilidade do que fez.
A hipocrisia não pode reinar.
Tem um problema: não é a hora, atrapalha 2010. Pergunto: qual é a hora? Todos vão bem, com seus projetos, seus cargos, seus planos futuros. Mais à frente, outros projetos estarão em jogo e continuara não sendo a hora.
Esse problema é do PT, e não podemos ser pautados por outros, pela mídia. Não podemos ter medo de enfrentar o debate, é um problema do PT. Um debate interno nosso.
Delubio pede pra voltar, devemos dar a ele a oportunidade.
Afinal, estamos todos de pé.
Paulo de Tarso Batista
PT Goiás.



