A PÁSCOA DE DELÚBIO

 

Páscoa (do hebraico Pessach, significando passagem), é o momento em que os judeus comemoram a libertação e fuga de seu povo escravizado no Egito. Para os cristãos é uma festa que celebra a ressurreição de Jesus Cristo. Na liturgia judaica e cristã, a penitência, o jejum, as orações e a meditação marcam o ritual de passagem para uma nova vida através da purificação e do arrependimento.

Páscoa também pode ser compreendida como a vitória a vida sobre a morte, ou, noutros termos, da esperança sobre o medo.

A eleição do presidente Luis Inácio Lula da Silva em 2002, representou a Páscoa para milhões e milhões de brasileiros. A esperança de um Brasil melhor venceu o medo e o preconceito contra a eleição do operário, nordestino, monoglota e sem diploma universitário.

Eleger Lula foi o ritual de passagem para que o Brasil encontra-se consigo mesmo, ou como diria o saudoso Darcy Ribeiro, foi o ápice da nossa cultura multiética, multiracional e multicultural, onde, pela primeira vez um filho do Brasil profundo assumiu a responsabilidade pelos destinos do País.

A mensagem de Lula, durante toda a campanha de 2002 (e também de 2006), foi o discurso da Esperança superando o Medo. Este discurso seria absorvido por toda América Latina, culminando com a eleição do ex-tupamaro e ex-guerrilheiro Tabaré Vazquez, no Uruguai, tirando pela primeira vez da história daquela país Blancos e Colorados do poder. O lider indígena Evo Morales subiu ao poder na Bolívia, pondo fim ao apartatheid que negava aos índios do altiplano o direito de dirigir o próprio destino. A esperança também chegou com força na Venezuela, elegendo Hugo Chavez contra o lobby multinacional que controla uma das maiores reservas de petróleo do mundo, relegando o povo à miséria eterna.

A esperança ganhou também na América Central, na Nicarágua com a recondução de Daniel Ortega ao poder central e em El Salvador com Mauricio Funes, candidato da ex-guerilha de esquerda Frente Farabuto Marti.

E foi somente a esperança no discurso Yes, we can (Sim, nós podemos!), levou o primeiro negro à presidência dos Estados Unidos, elegendo Barak Obama, numa eleição que revigorou a democracia norte-americana.

O Partido dos Trabalhadores tem pela frente um debate importante nos próximos meses: manter-se-á fiel à bandeira da Esperança ou irá sucumbir ao Medo nas eleições de 2010?

O debate sobre a reintegração de Delúbio Soares aos quadros do PT, exige que o partido supere seus medos internos e poste-se, mais uma vez, com coragem frente à história.

Desde 2005 Delúbio Soares é o cordeiro oferecido aos lobos para expiar os pecados da legenda. O epísódio surreal denominado Mensalão ainda atormenta petistas que temem no retorno do ex-dirigente prejuízos à virtual campanha de Dilma Roussef à presidência. É público e notório que não foi comprovada em nenhuma das CPIs instaladas naquela período a compra de deputados para votar em projeto do governo federal. Outrossim, é certo, como afirmou o próprio Delúbio, despesas de campanha nas eleições de 2002 e 2004, foram pagas “por fora”, contrariando a legislação eleitoral vigente.

Por que houve caixa dois em campanhas ao governo e às prefeituras em 2002 e 2004? Porque o PT sucumbiu à lógica da governabilidade e não p?s em votação – no início do mandato de Lula -, a Reforma Política. O capital político do início do mandato foi gasto com a votação da Reforma da Previdência, adiando, postergando indefinidamente – ad eternum -, o debate sobre a legislação eleitoral brasileira.

Assim como os hebreus sacrificam o cordeiro na Páscoa para expiar os pecados, ou como os cristãos exortam o sacrifício de Jesus “o cordeiro de Deus que veio para tirar os pecados do mundo”, o PT não pode continuar numa postura hipócrita sacrificando o “cordeiro Delúbio”, para esquivar-se do debate maior, que é o debate da reformulação do sistema político-eleitoral do país.

A volta de Delúbio ao PT é o momento para esta passagem. Delúbio tem direito à ressurreição pois foi purificado nas penitências das CPI?s, depoimentos, inquéritos, achicalhes na mídia e todo tipo de provação. Assim como o cordeiro, que não nega o pescoço ante a faca do algoz, Delúbio não berrou, não titubeou. Foi para o sacrifício. O PT, que deve ter respeito com a próprio história, não pode negar misericórdia a um de seus mais valentes militantes, tampouco não deve se acovardar e ceder à pressão de seus opositores, que na verdade não querem e nem nunca quiseram mudanças na legislação eleitoral. O episódio recente envolvendo tubarões da Fiesp, da empreiteira Camargo Correia e medalhões do DEM e PSDB estão aí para provar a assertiva.

Dizer que a volta de Delúbio ao PT atrapalha a eleição de Dilma é pensar que o povo brasileiro é besta. Este povo que elegeu o primeiro operário à presidência está pronto para levar a primeira mulher ao posto mais alto da República. O PT não pode trocar de mote e deixar o medo vencer a esperança.

MARCUS VINICIUS FELIPE

Um comentário

  1. João Roberto /

    Quem quer punir eternamente Delúbio e o PT são os fariseus do Templo da Hipocrisia Política. Xô borra-botas. Viva o companheiro Delúbio, Guerreiro do Povo Brasileiro!

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