A Fome dos Bolsos Gordos

Batista Custódio (*)

Às vezes, acordo com a angústia de estar morrendo e a desolação de seguir percorrendo no silêncio das clandestinidades a solidão dos honestos. Todos sãos bons, ruins são os outros. Os julgadores não veem a si mesmos. O pudicismo dos moralizadores tem sido estéril na geração da austeridade, mas fértil nas sucessões reprodutivas da corrupção por outras corrupções mais poderosas e insaciáveis no ventre dos poderes públicos.

Talvez meu desalento seja vontade de ir-me embora deste Mundo perverso das respeitabilidades suspeitas e imunes nas venalidades que lavam a salvação dos impuros nas lágrimas dos inocentes. O recato dos condenadores guarda intimidades mais excêntricas que os escândalos dos condenados, pois os inquéritos políticos que apuram os crimes de Estado cometem no abuso de poder criminalidades que suplantam as ilicitudes investigadas e praticam delitos que justificam o enquadramento dos membros das sindicâncias como réus e de serem absolvidos os indiciados.

Só os dirigentes públicos insensíveis não percebem a devastação do nosso progresso indo ao contrário do crescimento mundial baseado na preservação do meio ambiente e onde a questão prioritária não é plantar imensidões de soja, mas plantar templários de ideias inovadoras; não é construir hidrelétricas faraônicas, mas construir escolas de ciência e tecnologia, para se criarem alternativas de sustentação da vida no Planeta e de aperfeiçoamento da modernidade para se garantir a todos oportunidades de expansão conforme a vocação de cada um.

O patriotismo dos líderes políticos é a sede da soberania de uma nação, e a liberdade de um povo depende da independência econômica promovida através do aproveitamento criterioso das riquezas naturais e da aplicação parcimoniosa dos tributos arrecadados nas fontes de produção para se incrementar o desenvolvimento das frentes pervertidas pelas misérias sociais.

Mas o atraso é brilhante na visão dos braçais de um poder mal copiado do modelo que nunca deu certo em política, que é a mesquinhez de flagelação dos redutos aliados e a oxigenação dos flancos adversários. Não há sacrifícios temerários para os desbravadores audazes nem condições adversas para os empreendedores capazes, porém o que se assiste é ao momento triste do pleno avanço demolidor dos melhores expoentes da inteligência humana na vida pública.

O mazelamento da convivência nas sinecuras das hostes governamentais é envelhecido nos tonéis das verbas em todos os porões oficiais secularmente. Realmente, os Tesouros Nacional, Estaduais e Municipais estão exauridos e não aguentam mais o corporativismo acintoso das rendições entre as safras de corruptos. Sanear moralmente os negócios públicos é preciso urgentemente; contudo, o que está se consumando impunemente é a vigência da mentalidade policialesca instituir a supremacia dos escândalos acima da soberania interdependente dos Três Poderes da República e do postulado consagrado às leis, para arrastar à desonra figuras lastreadas na projeção popular ou referendadas na notoriedade empresarial, e que, uma vez empurradas pelo denuncismo vazio à desmoralização precipitada, e mesmo que absolvidas posteriormente pela Justiça, sentem-se constrangidas ante à maledicência solta na curiosidade pública.

A idoneidade da reconstrução ética de uma nação é uma missão séria demais para ser deixada a cargo de policiais, sob pena do risco iminente de serem desmanteladas as elites do pensamento e da consolidação econômica em que se estruturam as tradições pacíficas da sociedade civil ordeira; afinal, os organismos das polícias, investidos da função dos estadistas, agem primariamente tal uma equipe de charlatões no combate de uma epidemia de maleita, que, ao invés de erradicar a doença, exterminaria a população infestada e acabaria fatalmente contaminada pela enfermidade, no caso, a peste da corrupção, cujos dispêndios gastos com as doses erradas da moralização são mais onerosos que os custos das roubalheiras nos erários federais, estaduais e municipais nesse rendez-vous de determinados políticos com certas empreiteiras.

Recentes acontecimentos históricos fazem a prova dessa realidade. O prejuízo das metas dos planos de obras é irreparável só com a perda de tempo no primeiro mandato do presidente Lula nas negociações partidárias para superar o episódio do Mensalão, que, em verdade, originou-se de fato no primeiro governo do presidente FHC para articular a aprovação pelo Congresso Nacional da Emenda Constitucional da Reeleição.

Foi providencial a reação pública do presidente do Supremo, ministro Gilmar Mendes, à espionagem do delegado Protógenes Queiroz na Operação Satyagraha (palavra usada por Gandhi para expressar firmeza na busca da verdade) e não exalto do mesmo modo sobre o silêncio do ministro Joaquim Barbosa ao estar relatando o processo do Mensalão sem desentranhar dos autos os 40 envolvidos para que cada um deles seja julgado, caso a caso, conforme a sua participação. Considero saudável, para o regime democrático, até o bate-boca dos dois ministros como manifestação cívica de que não se consideram vestais intocáveis, mas, sim, pessoas sujeitas ao destempero emocional como todos os demais seres humanos.

Conheço a militância política de Delúbio Soares, pela imprensa, como sindicalista e como um dos fundadores do PT. Tenho por ele o apreço que não nego a toda pessoa que a sei estar sofrendo, merecida ou injustamente, mas que, no seu caso, é maior por sabê-lo estar na condição de boi jogado às piranhas pelo cinismo moralista, enquanto a boiada atravessa no nado livre, embarcado nas boias e até a bordo nos iates às águas do rio onde os donos dos rebanhos eleitorais continuam pescando corrupção no viveiro dos pleitos.

Refuto de hipócrita o posicionamento dos petistas refratários à sua refiliação partidária e defino como inoportuno o desaconselhamento manifesto de Lula contrário ao propósito de Delúbio. Ele foi o tesoureiro do Partido dos Trabalhadores e o captador de recursos financeiros para as campanhas eleitorais dos que agora o rejeitam no governo e, inclusive, do próprio presidente Lula, quando, se dependesse dos que hoje hospedam-se nas mais altas dependências do governo, o sucessor de Fernando Henrique Cardoso teria sido o Jo

sé Serra.

Todos os partidos políticos têm o seu Delúbio Soares recolhendo doações direto da bandeja das empreiteiras para o prato dos  caixas das campanhas eleitorais, com a agravante de que uma porção deles fica com as sobras milionárias dos recursos arrecadados. Mas, com o próprio Delúbio, o original, é diferente do costumeiro. Passaram bilhões de reais aos seus cuidados e ele permanece na pobreza exteriorizada. Sobrevive-se da ajuda de amigos; do adjutório das raspadas rendas da Fazenda Barreirinho, de seu pai, Antônio Soares de Castro; de 22 alqueires, no município de Buriti Alegre, e uma propriedade originada de uma gleba herdada pela mãe, Jandira Soares de Castro; e, às vezes, Delúbio é socorrido pelos vencimentos da esposa, a psicóloga Mônica Valente.

Não existe como conceituar, com honestidade, um cidadão que não reteve nas economias pessoais um único centavo da dinheirama alheia confiada a ele, senão como de um caráter invejável. Mas não é apenas Delúbio a vítima da caçada cruel aos líderes valiosos. Dirceu é outra; no entanto, a consciência nacional o buscou para viabilizar a sucessão presidencial na mãe do PAC, Dilma Rousseff. Mas Delúbio Soares está para José Dirceu em sabedoria Política como Jorcelino Braga está para Roberto Campos na ciência da Economia.

Realmente não é fácil um menino sair do fundão dos sertões goianos e subir os  seletos degraus do centro das decisões do País. Tenho convivido proximamente com o seu estoicismo nas dificuldades. Honra-me recebê-lo em minha casa nessa travessia dura à beira reclinada para o ostracismo. Ele sabe que pensamos diferente em diversas questões políticas, entretanto, tenho aprendido muito nas nossas conversas a respeito das causas que infelicitam ao povo brasileiro.

Se o PT cometer a imprudência de negar-lhe o direito adquirido no chão das praças públicas de refiliar-se, o nome da agremiação dos petistas deve ser mudado para Partido Travestido do seu ideal de lutas. E também eu terei de mudar o meu voto pessoal, que declara previamente em artigo assinado, para deputado federal no Ronaldo Caiado em todos os pleitos, e, por princípio de consciência, pedir à minha mulher, Marly de Almeida, e às minhas filhas, Imara e Verônica, que votem por mim nele. Porque se o Delúbio Soares candidatar-se, não importa por qual dos partidos, o meu voto já fica declarado, desde já, no Delúbio Soares para a Câmara Federal. E não preocupam-me as possíveis pedras das incompreensões. O João do Sonho, aqui do meu lado, cumpre o seu ritual habitual de ir soletrando o texto enquanto escrevo e, quando chegou ao trecho da minha confissão de voto no Delúbio Soares, exclama:

– Papai, eu também votaria nele!

 E isto me basta. É a voz do futuro.

Nunca escrevo ao seco dos sentimentos como a maioria dos jornalistas, mas ao embalo das emoções e ouvindo boa música, que quanto mais angustiada tanto melhor. Pedi ao cunhado Silvânio, cantor e compositor, para gravar o prelúdio de Zambra, de J. Arozamena/F. López, repetidamente 219 vezes num CD, ao estilo de Bolero de Ravel, de Maurice Ravel, e fiquei escutando-o, ontem à tarde, até a inspiração arrebatar-me para o tema Delúbio Soares. E lá dos planos da alma, possuiu-me a compulsão impulsiva de dizer ao presidente Lula que um governo pode forrar-se nos aplausos do seu sucesso reconhecido, mas termina pequeno se deixou um dos amigos das horas incertas à sanha dos inimigos na chapada do abandono.



(*) Batista Custódio é o fundador e diretor-geral do Diário da Manhã, de Goiânia. Uma legenda na imprensa e na vida de Goiás, foi um das mais importantes vozes da oposição à ditadura pós-64 com o seu histórico semanário “Cinco de Março”, tendo sido preso e perseguido pelo regime militar.

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